Histórias infantis criadas para levar, de forma lúdica, informações de prevenção à violência sexual cometida contra crianças e adolescentes na Região Norte do país.
COMEÇAR A LEITURAA ideia é possibilitar que os próprios moradores das comunidades ribeirinhas sejam capazes de identificar momentos em que crimes sexuais possam ocorrer, ou já estejam ocorrendo, e também instruir a todos sobre como agir diante dessas situações — provocando as pessoas a intervir para evitar, impedir ou denunciar os crimes, caso já tenham sido cometidos.
Acompanhe a jornada de Maria, Rai e sua família na comunidade da Ribeirinha.
O texto completo deste capítulo ainda não foi adicionado ao site novo.
Sabe aquelas historinhas divertidas que no fim tem uma moral? Como a da Chapeuzinho Vermelho, que te ensina a não falar com estranhos, ou a de João e Maria, que te ensina a não confiar nas coisas porque tem uma aparência apetitosa – e mais uma vez a não falar com estranhos.
Essa é uma dessas histórias, mas sem um filtro fantástico de criaturas mágicas. Ribeirinha é a nossa heroína, mas bem mais esperta que a maioria das princesas. Vou te explicar mais sobre os personagens e o felizes para sempre você só descobre no final.
A mãe de Ribeirinha se chama Lúcia, tem apenas vinte e cinco anos, engravidou cedo e teve que cuidar dos filhos sozinha depois que o pai das crianças a deixou. Apesar de ser a filha mais nova, todos da família a procuram por seus conselhos sábios. Sempre calada, Lúcia só abre a boca para falar algo bonito, ou para sorrir para os filhos, que adora mais que tudo no mundo.
A avó Therezinha, por outro lado, adora falar – da vida dos outros – comunicativa, cheia de energia, ama dançar, rir alto, contar piada. Dizem que é braba, mas a Ribeirinha quase nunca viu esse lado da sua avó, a não ser que se tratasse dos filhos ou netos, que ama acima de tudo.
Quanto aos irmãos de Ribeirinha… eles ainda eram muito jovens. João tinha só seis anos e era um caos de criança. Queimava os brinquedos dos irmãos e até algumas roupas, por isso deveria ser mantido longe de materiais inflamáveis; mas em geral ninguém ligava muito, porque ele tinha um coração enorme.
Kaio era o mais novo, 3 anos, mimado e a doçura em pessoa. O garoto era carinhoso e quase sem defeitos, calado feito a mãe, tinha os cílios gigantescos e, quando os piscava, fazia qualquer um derreter de amores. Ribeirinha achava que isso era quase um superpoder.
Sobre os primos, Ribeirinha tinha vários, mas se perguntasse ela só falaria de Maria. Mas quem não lembraria de Maria depois de vê-la? A garota tinha apenas 10 anos, era linda como uma boneca e era barulhenta como uma matraca. Menina alegre e conversadeira, sabia de todas as fofocas da região e adorava costurar roupinhas para as bonecas das primas. Era ela quem cuidava da mãe, tia Neuza, que tinha pressão alta.
Falando da tia Neuza, a definição seria barraqueira. Contraditório, porque toda vez que se metia em um barraco, o que acontecia frequentemente, passava mal e precisava de assistência. No fim, ela acabava sendo uma pessoa de extremos: ou você ama muito, ou odeia na mesma proporção.
Ribeirinha tem uma família enorme, mas ainda abria espaço para falar da sua melhor amiga, que era uma irmã de coração. Rai era a outra metade de Ribeirinha. Tinham suas diferenças, mas eram basicamente cópias uma da outra. Ela era gentil demais, sendo assim, sua melhor amiga sempre tinha que tomar a dianteira para defendê-la.
Por último, mas não menos importante, vem a professora Patrícia. Ela não tinha filhos, mas tratava todos os seus alunos como se fossem dela. Era o exemplo de Ribeirinha, que sonhava em ser uma professora como Paty. Determinada, forte, inteligente e amável, sempre achava uma maneira de ensinar da melhor forma os seus alunos, mesmo nas condições precárias da escolinha.
Essas são as pessoas do coração de Ribeirinha, uma garotinha de nove anos, travessa, de pés ligeiros e mente mais ligeira ainda. Menina quilombola de família simples e cheia de amor. Sua vida não era fácil, precisava ter cuidado a todo o tempo e se manter esperta.
Nosso desafio é aprender junto com a Ribeirinha as coisas que a maioria das pessoas não comenta, mas que são importantes para qualquer criança. Sendo assim, aproveite a narrativa e se divirta junto com a nossa garotinha travessa. Te garanto que serão capítulos prazerosos de uma historinha simples e que vai te ensinar muito.
Notas nossas: "As Aventuras da Ribeirinha" é uma historinha dividida em capítulos. Não esquece de acompanhar o desenvolvimento e ficar ligadinho nas redes sociais do Futuro Brilhante para ser avisado sempre que tiver uma nova aventura disponível para leitura.
Te vejo no primeiro capítulo.
Texto: Nicoly Araújo
Ribeirinha ouvia a prima reclamar pela centésima vez.
– quantas vezes já te falei pra não mexer nas minhas coisas, pestinha?! – Maria estava transtornada.
Mas não era sua culpa, o diário estava sob a cama e no mesmo lugar estava a boneca de pano que a vó Therezinha tinha costurado especialmente para ela.
Ribeirinha deveria confessar que já estava preocupada com a prima, Maria era faladeira e feliz, tinha só dez anos, mas amava brincar com as primas mais novas e costurar roupinhas para as bonecas, bem como ouvir as fofocas da vó Therezinha.
Nas últimas semanas a garota, que não conseguia manter a boca fechada, já não falava nada, não queria mais brincar e ficava muito agressiva quando a prima a perguntava o que estava acontecendo. Ribeirinha andava assustada com a reação da prima e o que tinha visto no diário parecia ser assunto sério demais para ficar escondido debaixo da cama, além de ser a razão do mal-estar de Maria.
A mãe de Ribeirinha logo tomou a frente da conversa.
– O que a menina fez não foi certo. Mas esse não é o assunto. O que aconteceu é muito sério.
Ribeirinha era criança esperta demais para sua idade, mas mesmo assim não havia entendido a seriedade do que estava no diário. Haviam palavras como vergonha e nudez. Tudo a deixou tão confusa que resolveu mostrar para a mãe, que mostrou para a vó Therezinha.
O diário parecia contar uma história horrível. A prima chorava dizendo que a criança era uma peste fofoqueira e que não deveria mexer nas suas coisas.
Já a vozinha olhava para a neta chorosa com raiva nos olhos, mas não estava direcionada à criança a sua frente. Vó Therezinha aninhou a menina no colo até parar de chorar, como se conhecesse a sensação.
Maria parecia não entender a situação. Ela olhava para a avó e dizia que ficou com vergonha, que não deveria ter aceitado os doces do moço.
– shh…- dizia vó Therezinha. Ela parecia triste até os ossos, mas mantinha a postura para apoiar a criança – Eu “tô” com você, mas precisamos contar isso pra a polícia. Esse infeliz tem que ser preso! A gente não pode deixar acontecer outra vez. – vó Therezinha disse calma e decidida como uma pedra. Maria chorava tanto que tremia, mas ela e a avó saíram.
Ribeirinha, por sua vez, não entendia nada, mas a sua mãe sentou ao seu lado e segurou as suas mãos.
Lúcia tinha os dedos frios e suados. Segurava entre eles um dos seus bens mais valiosos, sua pequena Ribeirinha. A mulher não parava de pensar que se sua irmã tivesse alertado Maria sobre os perigos, talvez a criança não tivesse passado por algo tão terrível assim.
Não, não deixaria que isso acontecesse com a sua menina. Lúcia estava disposta a explicar sobre tudo, sem nenhuma vergonha, se isso fosse manter sua pequena a salvo.
– Sua prima… Mariazinha… ela foi pra casa de uma amiga, o parente dessa garota ofereceu umas balas pras meninas se elas sentassem no colo dele, a amiguinha de Maria disse não, mas sua prima não viu maldade – explicou Lúcia, com cautela.
– O que ele fez mainha? – perguntou assustada. Sua mãe parou para pensar um pouco então disse com calma.
– Toda pessoa tem o seu corpinho e o ele tem lugares que só podem ser tocados com permissão. Eles são chamados partes íntimas – Ribeirinha via a dificuldade da mãe em explicar, mas se sentiu grata pela tentativa. – Uma pessoa ruim fez isso com a sua prima, ele tocou nas partes dela; isso não pode, se chama estupro de vulnerável, por isso a vó Therezinha levou ela pra polícia.
– Polícia? – perguntou perplexa pela seriedade.
– Sim. É muito sério isso, Ribeirinha. Você fez certo em mostrar pra nós. Se alguém algum dia tentar fazer isso com você, tu tens que fugir e contar pra mim ou pra tua avó. Tá? Filha, tu não podes aceitar nada de estranhos, não pode deixar que eles toquem em você. Essas pessoas são más. Elas não querem nada de bom.
– Crianças como você não tem idade pra serem tocadas. Não podem ser tocadas de jeito nenhum desse jeito.
Ribeirinha anuiu com a cabeça. – Por quê a Maria não falou pra mãe dela, então?
– Ela tava com muito medo e vergonha, achava que era culpa dela por ter aceitado os bombons. E sabes como é tua tia Neuza. Ela se estressa logo e tem problema de pressão… Maria queria poupar a mãe.
– Mas não era culpa dela! O homem era mau, né mainha?
– Muito mal – Lúcia apertou mais a mão da filha – Nós somos melhores amigas, Ribeirinha. Tu tem que me contar tudo, não pode querer me aliviar. Eu vou sempre defender você.
Ribeirinha pensou um pouco e perguntou para Lúcia como ela sabia tanto sobre isso e se já havia acontecido com ela.
– A mãe te explica melhor depois, mas aqui na região acontece muito. Já acompanhei muita amiga minha na delegacia com as filha.
Ribeirinha ficou muito triste pela prima. Então ela e a mãe fizeram um caldo de galinha pra quando ela chegasse. A garota foi alertada a não fazer muitas perguntas e a ficar sempre do lado da prima dando apoio naquele momento difícil.
No fim do dia, quando Ribeirinha deitou do lado de Maria, a família estava toda reunida no quartinho da casa, não só porque era o único lugar que tinham para dormir, mas porque queriam estar todos lá pela criança violentada.
– Minha mãe não pode saber, ela vai ter um piripaque – Maria começou, mas Lúcia a interrompeu.
– Não é um caminho fácil, filha. Mas eu e a tua avó estamos aqui, sua mãe te ama e vai te defender a todo custo.
– Mas se eu não tivesse aceitado os bombons…
Ribeirinha a impediu de continuar com aquele pensamento – A culpa não é sua. Esse homem é malvado! A polícia vai pegar ele ou a vó Therezinha pega.
Lúcia sorriu brevemente para a filha. – Não pensa muito nisso. Vamo viver um dia de cada vez. Amanhã será outro dia e vamo enfrentar ele juntas.
A prima de Ribeirinha adormeceu e vez ou outra suspirava à noite, mas parecia mais tranquila do que na madrugada anterior. A garotinha descobriu que em situações terríveis como aquela o melhor que se pode fazer como família é prestar atenção aos sinais, confiar uns nos outros e dar apoio em todos os momentos necessários.
– Nicoly Araújo e Diego Martins
Notas nossas — Estupro de vulnerável:
Artigo 217-A, Código Penal: ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso
com menor de 14 anos. Pena: reclusão, de 8 a 15 anos.
Fique atento aos sinais, denuncie, apoie seu filho e explique a ele sobre as partes
íntimas.
Passaram-se apenas 10 dias desde o ocorrido com Maria, mas a Ribeirinha sentia como se tudo tivesse acontecido no dia anterior. A comunidade estava agitada demais. Na escola não se falava em outra coisa, os amigos de Ribeirinha não saíam mais para brincar e a própria garotinha não ia para a escola todos os dias e quando ia tinha que estar acompanhada da sua mãe. Todos ao redor de Ribeirinha pareciam afetados pelos acontecimentos.
Menos tia Neuza, que ignorava tudo o que aconteceu com sua Mariazinha, negando-se firmemente a tocar no assunto. Isso gerou mais crises do que nunca na família de Ribeirinha. Lúcia insistia que era necessário abordar o assunto e procurar ajudar Maria, mas Neuza estava irredutível.
Para Ribeirinha não havia momento mais infeliz do que quando todos se sentavam à mesa juntos, no jantar, onde o único ruído que ouviam era o da mastigação, como se ninguém mais pudesse se comunicar.
Vez ou outra só se ouvia um sermão de Neuza para que a filha comesse, mas quanto mais passavam-se os dias, mais comida Maria deixava no prato. Todos estavam preocupados demais para insistir para que ela comesse mais um pouco.
Ribeirinha pensou que essa tristeza nunca mais se desfaria, principalmente para a pobre prima. Tudo piorou com o acontecimento do dia posterior àquele em que a menininha foi à delegacia.
Quando todos souberam o que ocorreu com a neta de Therezinha, tentaram invadir a casa do agressor, pais de crianças que sempre visitaram o lugar batiam com pedaços de pau no portão.
Maria ouviu o barulho e tremeu tanto que não suportava ficar em pé, encolheu-se no canto da sala e vomitou. Lúcia disse que ela estava em pânico, abraçou a menina com força e tapou seus ouvidos e a fez respirar lentamente.
Neuza, que sempre tinha uma reação para algo, ficou paralisada ao ver a filha daquela forma. Sentou-se e pediu por um copo de água para si.
Enquanto isso vó Therezinha implorava para que todos fossem embora, ninguém da família odiava mais o agressor do que amava Maria, e não importava para Therezinha o quão doentio o homem era, ela só queria que a neta ficasse bem.
Entre os gritos para parar, a multidão dispersou-se quando a polícia chegou e levou o homem.
Ribeirinha estava curiosa para ver o vizinho. Não lembrava mais do rosto dele desde o acontecido. Foi estranho ver que o homem que os policiais levavam para dentro do carro era um idoso pequeno e corpulento. Desde que Maria contou para a família sobre ele, a Ribeirinha mudou a imagem mental que tinha para alguém grande e feio que a daria medo e repulsa. Mas o homem era velho e normal. E isso a deixou confusa.
A partir daquele dia a família barulhenta e alegre ficou cada vez mais silenciosa e apática, assim como Maria.
Ribeirinha ficava em casa o dia inteiro. Só saía para a escola trazendo consigo as lições de Maria, que normalmente não as fazia sozinha, precisando sempre da ajuda de Lúcia. Ribeirinha tentava convencer a prima a sair um pouco ou brincar.
– Eu quero ficar sozinha, me deixa – respondia a garota em um tom raivoso.
– Mas eu posso deixar você fazer penteados em mim e nós brincamos de salão, podemos fofocar – Ribeirinha sabia que era uma das brincadeiras favoritas da prima.
– Sai daqui, Ribeirinha! – Maria respondeu jogando um travesseiro na prima mais nova, que saiu do quarto correndo e chorando.
Lúcia percebeu a filha e perguntou o que tinha acontecido.
– Maria não gosta mais de mim. Ela não gosta de mais ninguém daqui. Eu tento, mamãe; quero deixar ela feliz, mas ela não é mais feliz.
Lúcia sentiu pena da pequena garotinha, e com um aperto no coração pegou as mãos da filha e fez carinho. – Isso não é verdade, Ribeirinha. Maria ama todos nós, ela só tá triste, mas isso vai passar.
– Quando? – perguntou a criança enquanto soluçava.
– Não sabemos.
Mais tarde naquele dia, as crianças estavam se lavando e prontas para dormir, quando as três mulheres da casa sentaram-se à mesa.
Lúcia estava possessa, tentava fazer Neuza reagir para ajudar a filha que estava cada dia pior enquanto Therezinha só escutava.
Neuza abriu a boca, os lábios tremeram enquanto enfim tentava desabafar.
– Eu sempre a achei tão forte. Nunca me esforcei muito em nada por ela porque Maria sempre resolvia. Eu não sei o que fazer, mãe.
Lúcia se manteve calada e Therezinha segurou a mão da filha mais velha.
– Eu não sei nem como eu faria se fosse contigo ou tuas irmãs. Você não precisa saber também, mas ao mesmo tempo tu precisas fazer algo. Maria precisa de ti.
Neuza olhou então para a irmã.
– Eu não faço ideia de como posso ajudar, toda vez que eu penso no que aconteceu minha pressão desanda.
– Você vai ter sempre nossa ajuda, sei que tu é viúva e só tem a Maria, mas se não fizer algo você pode perder ela.
Vó Therezinha apertou a mão de Neuza com força e falou:
– Você vai dar apoio. É hora de ser adulta e cuidar da tua filha, porque dessa vez quem precisa é ela.
Maria sempre tinha pesadelos pela noite. Ela se recusava a fechar os olhos e dormir até que o sono já fosse insuportável demais para aguentar. Mas naquela noite ela não dormiria só. Neuza deitou-se do lado da filha e fez carinho no cabelo de Maria.
– Eu vou sempre tá aqui, e eu vou proteger você. – Sussurrou para a filha.
Maria abraçou apertado a mãe e dormiu sentindo o cheiro de Neuza, de casa, de segurança e de família. E toda vez que ela acordava com medo era aquele cheiro que a envolvia, e eram as mãos da mãe que a colocavam para dormir novamente.
Dois dias depois Neuza informou que iria para a cidade conseguir um médico para cuidar da filha, ela havia falado com a irmã do falecido marido e ficariam na casa dela no dia da consulta.
Depois de um certo tempo não havia mais ataques na pressão de Neuza e Maria começou a comer toda a comida do prato, bem como dormir a noite e brincar de salão de beleza com Ribeirinha.
Mesmo assim, a família nunca mais seria a mesma. Estavam mais unidos agora.
– Nicoly Araújo e Diego Martins
Ribeirinha teve um dia de folga quando a avó decidiu ir com ela e os outros netos até o rio onde as crianças sempre tomavam banho, algumas crianças ainda não tinham permissão para sair de casa sem os pais, mas as coisas aos poucos voltavam ao normal, se é que um dia poderiam normalizar.
A garotinha, que gostava da companhia da avó, não achava ruim que Therezinha ficasse por perto. Com exceção daquela manhã em que a senhorinha estava especialmente chata.
Primeiro ela implicou com Ribeirinha por subir no pé de manga.
– Desce daí, é perigoso! Ribeiriiiiiinhaaaa! Deixa de ser teimosa, moleca! – berrou Therezinha para todos ouvirem, mas logo depois pegou metade das frutas que a garotinha tinha pego e separou as que não estavam maduras, as preferidas da menina, para comer com sal.
– Mas vó, a senhora briga e depois come? Pode me dar, se quiser vai lá buscar. – Ribeirinha retrucou com Therezinha, que levantou os olhos e fez uma careta.
– Como que é? – perguntou fingindo incredulidade.
– Nada não, vozinha. Só perguntei se a senhora quer que eu pegue mais.
Já no rio, Ribeirinha tirou o vestido e pulou de calcinha. Therezinha descascava a manga e vez ou outra assobiava, dizia ela que era pra chamar o vento.
Então implicou mais uma vez com a neta por nadar para muito longe da margem. Ribeirinha não gostava que duvidassem das suas habilidades de natação, pois ela era a melhor nadadora das crianças da sua idade e muito melhor que alguns adultos.
– Tem que dar exemplo, menina! Olha o Kaio indo atrás… Voltem aqui pra “beira” seus teimosos!
Mesmo assim teve que sair do rio quando a avó mandou, se despediu dos colegas e foi para casa levando Kaio nos braços por parte do caminho. Ele era muito pesado, mas amava um colo e era mimado. Bastava piscar duas vezes com os grandes olhos castanhos que todos caíam de amores.
Quando chegaram em casa viram um homem alto, de meia idade, sentado na cadeira de balanço da vó Therezinha enquanto descascava uma mexerica.
Therezinha tratou logo de saber quem era e Lúcia logo saiu de casa para falar que era o amigo de Edmundo, seu irmão mais velho.
Acontece que Edmundo não parava muito em casa, era desbandado pro lado errado e se metia em negócios ilícitos até que foi preso. Depois do presídio foi trabalhar como pedreiro na cidade.
Ele havia falado com Therezinha uma semana antes sobre deixar que o homem passasse um tempo na casa até que conseguisse um emprego.
“amigo de confiança” era o que dizia.
– O Edmundo que me mandou, dona Therezinha – Disse com um sorriso simpático e depois olhou para as crianças. Algo no olhar dele incomodou a idosa que mandou Ribeirinha ir pra dentro dar banho em Kaio, inspecionar se João se lava direito e se vestir.
Ribeirinha queria ouvir a conversa, mas sabia bem que a avó não estava em um bom clima então fez o que Therezinha mandou.
– Entra no tanque – Disse Ribeirinha para o irmão mais novo e Kaio levantou os braços para que a garota o ajudasse a entrar. – E você pode já ir se molhando.
– Não sei pra que banhar se eu acabei de chegar do rio – rebateu João, que só chegava perto da água do rio e da caneca que bebia.
– Porque você tá cheio de terra e todo cinzento.
O garoto discutiu um pouco até ceder. Quanto a Kaio, Ribeirinha praticava o que a mãe a ensinou já fazia alguns dias.
– Levanta o bracinho, posso lavar aqui? – Kaio levantou o braço e a irmã lavou, ele disse que fazia cócegas e então Ribeirinha parou.
– Se você não gosta eu vou parar.
Ribeirinha lembrou-se da mãe ensinando: – Você precisa sempre pedir permissão, ele precisa saber que o corpinho é dele e só podem tocar se ele deixar, e se incomodar o Kaio você deve parar. Tudo bem?
– Agora você lava o pio-pio e o bum bum. – Ribeirinha dava instruções sobre a limpeza para o irmão. Kaio parecia muito contente no final, quase como se fosse um adulto que já sabia tomar banho sozinho.
Mais tarde, naquele mesmo dia, Lúcia fez o jantar e todos se sentaram à mesa, incluindo o estranho. Seu nome era Marcos, mas fora isso a família não tinha muitas outras informações.
O homem parecia educado e muito engraçado, contando histórias sobre os bichos que ele viu quando saía para pescar e dormia na floresta. – Eu estava deitado na rede e ouvi ela assobiando no meu ouvido, juro por Deus que pensei ser a Matinta Perera.
Depois das histórias as crianças não queriam ir dormir, mas Therezinha insistiu que já estava tarde e que no outro dia teriam de ir para a escola.
Ela pôs as crianças na cama e verificou se estavam bem cobertas.
– Nós temos uma visita. Ele não vai ficar por muito tempo, mas mesmo assim vocês vão seguir umas regras enquanto ele tá por aqui.
Ribeirinha prestou atenção na avó.
– Nada de andar só de calcinha ou cueca, principalmente porque eu não conheço bem esse homem e não quero que ele veja vocês assim. Mas isso também vale pra toda hora. Nada de banho de rio ou de sair de casa só com roupa íntima.
– Mas por quê? A gente sempre sai assim, o Kaio até fica pelado – Argumentou João, o irmão do meio.
– A gente precisa ter cuidado com vocês. Tem que ser zeloso com o corpo, sem sair mostrando pra qualquer um, porque é algo muito íntimo. Então agora é regra: roupas.
– Tudo bem, vovó. – Ribeirinha sorriu e bocejou.
– Ele vai ficar na casa da Neuza enquanto ela e a Maria estão na cidade. Boa noite.
Vó Therezinha não era uma pessoa muito afetuosa. Ribeirinha recebia abraços e eventuais beijos, mas não lembrava de ter ouvido muitos “eu te amo” da avó.
A avó de Ribeirinha fora criada em uma família fechada, no casamento foi que aprendeu mais algumas coisas sobre afeição, em geral não era uma pessoa de muitas palavras para manifestar amor. O afeto era demonstrado na preocupação com a alimentação, a saúde e o bem-estar dos filhos e netos.
Therezinha se lembrou da neta que ainda enfrentava o trauma, como pensou que sua Mariazinha perdera a essência de criança. Jamais imaginaria que o velho vizinho, que conhecia já fazia 10 anos, poderia cometer tal atrocidade.
A senhorinha aprendeu, do pior jeito, a manter os olhos abertos e a mente afiada, pois essas pessoas horríveis não tinham um rosto desfigurado ou aparência maligna. Na verdade, se disfarçavam de amigos sorridentes e vizinhos bondosos.
Therezinha faria de tudo ao seu alcance para filtrar os tipos de pessoa que conviveriam com as crianças.
Ajoelhou-se antes de dormir, como fazia toda a noite, e orou por cada familiar. Therezinha pediu a Deus para fazer aquilo que não estava ao seu alcance, aquilo que não poderia, nem com todo o cuidado do mundo, prever.
No fim, pediu para que os netos sempre a olhassem com carinho e que enxergassem o amor dela naquelas atitudes, pois não era boa em palavras ou gestos. Na verdade, era uma mulher furiosa, mas era daquela fúria que iria usar para proteger a família.
– Nicoly Araújo e Diego Martins
Sabe aquelas pessoas gentis com quem você se identifica de primeira? Ribeirinha se sentia assim com o visitante da sua casa. Therezinha dizia que visitas eram toleradas apenas por algumas horas, ou dias, já que se passara mais que uma semana a senhorinha insistia em chamar Marcos de encostado.
Mas ele era extremamente gentil. Sempre lavava a louça da janta, ajudava nos afazeres de casa e até cozinhava. Como também era muito bom em desenhar, fazia figuras e caricaturas que Ribeirinha amava pintar com o lápis de cor.
Quando vó Therezinha viajou por um dia para a cidade para ver Neuza e Maria, Ribeirinha abraçou a avó e disse pra ela não ter pressa lá e se divertir. A senhorinha reclamou que “quando ela morresse” a neta sentiria sua falta. A verdade é que Ribeirinha já estava com saudades desde que a velhinha saiu de casa para ir para a Rodoviária.
Marcos ficou ajudando Lúcia enquanto as crianças mais velhas estavam na escola. Ribeirinha voltou de lá com Rai, sua melhor amiga, e elas aproveitaram a tarde juntas para sair para conversar e catar algumas acerolas.
– A minha mãe começou a trabalhar em um lugar diferente, fica em uma fazenda enorme. Vou convencer ela a deixar você ir. Podemos ver cavalos lá e tem uns porquinhos muito fofos também!!- Rai exclamou enquanto colocava uma acerola na boca e fazia uma careta. – Essa aqui tá muito azeda!
– Eu quero muito ir ver essa fazenda, pois você fala muito bem dela.
– Lá é muito bonito! – o ânimo de Rai pareceu vacilar – O dono de lá me deu uma boneca Barbie daquelas de verdade.
– Onde tá? Por que você não me falou disso antes? Eu não sou sua melhor amiga? – Ribeirinha estava bem irritada, ela só via as Barbies nas propagandas e sempre quis ter uma original.
Rai apenas deu de ombros. – É que ele é estranho, o fazendeiro. Se você quiser pode ficar com ela. – Ribeirinha, como a criança que era, só se animou com a ideia da boneca e não perguntou nada mais sobre a fazenda ou o fazendeiro.
– Obvio que eu quero! Vou cuidar dela como se fosse minha filha.
Rai se despediu e prometeu trazer a boneca para a amiga. Ribeirinha foi correndo animada para casa.
Chegando perto sentiu logo o fedor de comida queimada e estranhou. Normalmente Lúcia era bem cuidadosa com a comida e os afazeres de casa. Mas animada como estava a garotinha não ligou muito.
Ribeirinha entrou na casa e chamou pela mãe, mas encontrou o irmão do meio sentado vendo tv. Ela perguntou por Lúcia e o garoto deu de ombros.
– Acho que aconteceu alguma coisa, ela tava bem irritada – respondeu a criança.
– Você deve ter aprontado, não é? A casa tá fedendo a queimado. O que foi dessa vez?
O menino olhou para a irmã decepcionado. – Dessa vez não fui eu – enfatizou – Eu nem tava em casa. Deve ter sido o Kaio. Ele tava com cara de assustado.
Kaio nunca aprontava, por isso Ribeirinha não acreditou – Por que será que eu não acredito em você?
João deu de ombros – Acredita se quiser, mas eu não tenho porque mentir. Tenho orgulho do que eu faço.
Ribeirinha bufou e girou os olhos. – Você não tem jeito!
O irmão sorriu sínico, mostrando o espaço vago em que deveriam estar os dois dentes que se recusavam a crescer de volta.
Ribeirinha foi ver a cozinha. O baião parecia carvão na panela. Ela resolveu tirar a comida estragada e lavar o arroz para a mãe aprontar quando chegasse sabe-se lá de onde.
Lúcia não demorou muito para voltar. Kaio estava com a cabeça enterrada entre os ombros da mãe. A mulher parecia furiosa, e Lúcia podia ser tudo, mas não costumava ser assim.
Ribeirinha desconfiou por um segundo que Kaio havia aprontado. Todavia, mudou de ideia quando o olhar da mãe derreteu e demonstrou preocupação.
– Onde está o seu irmão? – Perguntou enquanto encarava sua filha.
– Tô vendo TV – Gritou João.
Lúcia respirou aliviada.
– Ele voltou por aqui? Aquele filho da… – a mulher interrompeu o xingamento – O Marcos?
Ribeirinha fez que não e João veio ver como a mãe estava.
– O que aconteceu? – Ele estendeu os braços e pegou Kaio no colo. Ribeirinha achava engraçado como o irmão do meio vez ou outra assumia o papel de “homem da casa” e protegia as mulheres.
Depois do que aconteceu com Maria, João acabou insistindo em acompanhar as meninas e as vezes até a avó Therezinha quando saíam.
Lúcia parecia assustada, mas respirou fundo e pediu que os filhos sentassem em um lugar que achassem confortável para que pudessem conversar.
Todos foram para o quarto e Lúcia sentou-se junto com suas crianças. Ela mesmo se sentia uma menininha naquele momento e desejou com todas as suas forças que sua mãe estivesse lá com ela.
Kaio se aninhou novamente no peito da mãe e a observou começar a falar.
– Eu deixei Kaio brincando no quarto. Ele estava pintando algumas coisas e fui fazer o almoço – Lúcia passou alguns segundos respirando e olhando para o teto, queria chorar, mas não podia.
– Eu achei que estava tudo bem. Kaio sempre brinca sozinho no quarto, vocês sabem.
– Tudo bem, mãe. – João segurou a mão de Lúcia e a mulher sorriu fracamente.
– Estava silencioso e quando está silencioso e se tem uma criança pequena em casa sempre tem algo de errado.
Mais uma pausa para respirar.
– Quando eu fui no quarto checar, Marcos estava brincando com o seu irmão ele estava tirando a roupa de Kaio.
A voz de Lúcia vacilou e Ribeirinha não precisou de muito mais para entender o que havia de errado. Ela quis chorar, Kaio não podia passar pelo mesmo que Maria. O menino era tão pequeno e frágil.
– Foi o mesmo que aconteceu com a prima? – João, que também havia entendido, perguntou.
Lúcia fez que não com a cabeça.
– Kaio disse que estavam brincando de médico, que Marcos tentou tocar nas partes íntimas, mas ele disse que só a mamãe podia porque ela que lavava.
Ribeirinha estava confusa, Marcos era uma pessoa tão boa, sempre fazia desenhos… Mas lembrou-se da prima que ganhou doces “em troca” das carícias.
– Marcos fugiu. Então chamei o seu primo Marcelo pra vir aqui dormir com a gente.
Ribeirinha anuiu.
– Vocês têm que ter cuidado com essas brincadeiras – Ela olhou para criança no seu colo, Kaio olhava com atenção, o pipo mexendo na boca.
– Mamãe está orgulhosa de você não ter deixado ele te tocar – Lúcia fez carinho no nariz de Kaio e ele sorriu.
– Algumas brincadeiras parecem inocentes, mas na verdade são maldosas. Cavalinho, médico, até algumas cócegas em regiões inapropriadas… Vocês são como um tesouro muito precioso. Algumas pessoas veem como são lindos e querem fazer mal. Vocês devem fugir e sempre falar para a mamãe. Eu vou sempre, sempre, defender vocês.
Marcelo chegou pouco tempo depois. O rapaz tinha 18 anos e era enorme como uma porta. Parecia assustador pelo tamanho, mas era um amor.
Ele levou os livros do vestibular e ficou na mesa estudando.
João queria ficar por perto sob o argumento de que vigiaria a casa. Todavia Lúcia o convenceu segundos depois de dizer que precisava dele por perto, pois se sentia mais segura assim.
Therezinha voltaria no dia seguinte e elas iriam à delegacia.
As crianças dormiram ao lado da mãe. Lúcia mal pregou os olhos. Abraçou forte suas crias e agradeceu a Deus por cuidar dos seus meninos. Rezou pedindo por mais proteção.
A mulher enxergou a importância de ter falado com os filhos, de ter demonstrado segurança, caso contrário Kaio poderia ter sido machucado de maneiras que a mãe nem se permitia pensar.
Lúcia passou algumas horas da noite vagando nos “e se…” mas percebeu que o que importava agora era o que faria para ensinar seus filhos mais sobre como se proteger.
Seu tesouro todo estava naquela cama. Faria o necessário para protegê-los.
– Nicoly Araújo e Diego Martins
Notas nossas — Para saber mais sobre brincadeiras que não são para crianças veja:
https://www.instagram.com/p/CHp_8OLB3wx/ (Instagram Futuro Brilhante)
https://www.instagram.com/p/CG8XxzjAsYV/ (Meu corpo meu corpinho)
Ribeirinha ouvia os murmúrios pela sala. Odiava ter que ouvir os outros falando de sua família. Os comentários variavam de Maria para Kaio e vice-versa. Sua prima já não ia para as aulas por coisas como essa, mas a professora estava passando as lições para que ela resolvesse em casa e se disponibilizou para aulas extras.
-Olá, crianças! – Professora Patrícia parecia agitada. Pediu ajuda para dois dos alunos para entregar algumas folhas com o que parecia a letra de alguma música.
Ribeirinha olhou atentamente para o papel entregue e leu rápido seu conteúdo, surpreendendo-se. Por que a professora havia levado aquilo?
– Sabemos que algumas coisas muito tristes aconteceram com pessoas muito queridas. – Ribeirinha franziu o cenho. Até Patrícia falaria de sua família? – Pensando em como cuidar de vocês, que são tão especiais para mim, resolvi fazer uma aula especial para todos.
– O que a professora tá fazendo? – sussurrou a melhor amiga de Ribeirinha, Rai, que tentava olhar por cima das cabeças curiosas.
– O que ela tá fazendo? – perguntou.
– Vamos ver. – Ribeirinha não ficaria contente se Patrícia começasse a falar de Maria ou de Kaio.
A professora pediu para que todos fizessem um semicírculo com as cadeiras, deixando um espaço bem amplo para visualizarem o quadro e o cartaz.
Depois do barulho das carteiras sendo arrastadas, todos se sentaram em silêncio, pairando sobre as crianças a energia de sua curiosidade, tentando descobrir sobre o que a aula se tratava.
– Hoje nós teremos uma aula sobre educação sexual – Ribeirinha se sentiu aliviada. Não falariam da sua família e ela também sabia algumas coisas sobre o assunto graças a Lúcia.
Patrícia parecia animada ao ver seus alunos curiosos. Sempre pensara que tratar daquele assunto não era em nada fácil. Passou horas pesquisando sobre como falar com as crianças e descobriu várias brincadeiras. Estava feliz pelo conteúdo que tinha e considerava estar pronta para as perguntas que viriam.
A professora tomou um longo fôlego e prosseguiu.
– Quantos de vocês sabem o que são partes íntimas e onde ficam? -Ribeirinha prontamente ergueu a mão, mas quando os outros colegas não a acompanharam a garotinha, envergonhada, baixou o braço.
Após uma pequena pausa para analisar os rostos curiosos a professora continuou.
– Essa será a primeira aula da série de outras que darei falando sobre o assunto. Falaremos sobre educação sexual e como nos proteger. Mas antes quero que aprendam uma musiquinha para cantar comigo.
Patrícia ligou o som e uma mulher começou a cantar. As crianças acompanharam a letra pelo papel.
“para, para, pa-pa-pa-para
É muito importante ser valente
Ser valente é ser confiante
Que gente pequenina já é gente
E toda gente pode ser gigante”
A melodia era contagiante. Não demorou muito para as crianças começarem a cantar junto.
Depois de algumas repetições todos já sabiam a letra de cabeça, sem nem olhar o papel.
Patrícia estava extremamente contente e parabenizou a todos, dizendo que ganhariam um pirulito pelo bom trabalho.
– Todos vocês são crianças e os adultos devem respeitar vocês. Caso contrário eles estarão cometendo um crime.
– O que é um crime? – perguntou um dos colegas de classe.
Patrícia pensou na melhor forma de explicar. – Um crime é algo que é contra a lei e a lei é um conjunto de regras que nos diz o que é certo e errado, assim como nos dá direitos importantes. Se alguém faz algo contra essas regras, como roubar, está agindo contra a lei e deve ser responsabilizado pela Justiça.
– Minha mãe me dava banho, ela vai ser presa? – Júlia, uma das garotas do terceiro ano, perguntou assustada.
– Crianças devem ser cuidadas pelos pais e pessoas ao seu redor. Isso também é regra da lei, assim como adultos não podem machucar vocês e tocar seus corpinhos de maneira inapropriada.
Ribeirinha sentou na ponta da cadeira. Quanto mais Patrícia falava, mais ela se inclinava para aprender, assim ensinaria os próprios irmãos.
– Muito bem. Agora eu vou fazer perguntas e vocês me dizem o que a música ensinou vocês a fazer. – Começou a professora – É verdade que todo o adulto está certo todo o tempo?
– Não! – as crianças responderam em uníssono.
– Isso mesmo! Os adultos devem respeitar as crianças também. A criança também pode dizer “isso não pode” e quando parar.”
Ribeirinha lembrou de pronto da musiquinha.
– Se eu achar estranho o jeito de alguém me encostar o que eu vou fazer? – Patrícia colocou a mão no ouvido e as crianças responderam:
– Eu vou gritar “aaaaaaaaaaaaahhhh”
A cada resposta correta Patrícia ficava mais contente com os alunos.
– E se eu achar suspeito o jeito de alguém me mexer, o que eu vou fazer?
– Correr!! – exclamaram os alunos.
– Se alguém for me maltratar e eu não souber contar, se eu for contar e eu não souber pra quem…
– Eu disco 100!! – Responderam com a letra na ponta da língua.
A professora aplaudiu animada as suas crianças.
-Sim! Lembrem da musiquinha sempre. Se alguém olhar, tocar, fotografar, se mostrar eu vou?
– Gritar, correr, contar ou discar 100!
– Muito bom! Estou muito orgulhosa. Vocês já sabem, então: Todos os adultos devem respeitar os corpinhos de vocês. Lembrem sempre de gritar, correr, contar ou discar 100.
Patrícia liberou as crianças para o intervalo. Logo depois voltariam para estudar história, mas a professora prometeu sempre trazer brincadeiras do tipo.
Ribeirinha guardou o papel na mochila. Os irmãos adorariam a música.
“Ninguém mexe comigo o meu corpo é meu abrigo…”
A menina cantarolou a música por todo o caminho de volta para casa.
Quando chegou na pequena casinha de madeira Ribeirinha logo perguntou pelos irmãos, mas sua mãe mandou que fosse se lavar para o almoço.
Ribeirinha fez tudo na pressa e aporrinhou os irmãos até que decorassem a música (ao menos João, já que Kaio mal sabia falar).
Lúcia viu a filha animada dar aula para os irmãos menores e perguntou o que havia acontecido na aula para animá-la tanto.
Ribeirinha olhou para a mãe e respondeu: – Minha professora ensinou coisas importantes hoje. Se eu estudar muito posso virar professora como ela e ensinar outras crianças sobre as mesmas coisas.
Lúcia sorriu e fez carinho na cabeça da filha. – Você vai ser uma excelente professora.
– Obrigada, mamãe. – disse e logo procurou as tarefas de casa para responder. Se Maria soubesse de algumas daquelas coisas, se outras crianças que suportaram as mesmas situações soubessem, talvez as coisas tivessem sido diferentes.
Ribeirinha sempre soube que a educação era uma ferramenta que podia mudar o mundo. Ao menos era o que a professora Patrícia sempre dizia. Agora que tinha convicção naquilo, a garotinha estava disposta a também usar dessa ferramenta para ajudar as pessoas.
– Nicoly Araújo e Diego Martins
Notas nossas:
Há uma infinidade de conteúdo interessante na internet. Nós mesmos do Futuro Brilhante disponibilizamos cartilhas gratuitas no blog.
Mas existem muitas outras coisas: músicas, historinhas (como essa), brincadeiras e várias outras.
Para ouvir a musiquinha que Patrícia mostrou para as crianças acesse:
https://www.youtube.com/watch?v=J1RHieEwRNE
Fique ligadinho nos nossos conteúdos e nos próximos capítulos.
Até a próxima!
– Nicoly Araújo e Diego Martins
A sala de aula estava tão barulhenta que mal se distinguiam as vozes. Professora Patrícia não deixou de pensar que se fossem só as suas crianças ali não haveria tamanha bagunça quanto aquela produzida pelos pais.
Uma reunião havia sido convocada pela direção assim que alguns pais trouxeram reclamações sobre Patrícia e suas aulas inadequadas.
– Silêncio! – Gritou Edileusa, a diretora do pequeno colégio. – Um de cada vez. Assim não consigo ouvir nem meus pensamentos. Vocês falam e Patrícia responde depois.
Edileusa tinha menos de um metro e sessenta centímetros, mas a voz grave e a postura rígida colocavam medo até nas maiores pessoas. Isso porque a mulher, baixa como era, conseguia de maneira inexplicável olhar para todos com superioridade, mas não de uma maneira ruim.
Uma das mães da primeira fileira, que estava com seu bebê de colo, foi a primeira a falar.
– Juliana, minha filha, chegou em casa esses dias falando que a professorinha tinha ensinado sobre partes íntimas. Minha menina tem só 5 anos. Isso é um absurdo. Não tem mais nada pra ensinar na escola não?!
– O Enzo chegou com a mesma conversa em casa. O que vocês querem? Daqui a pouco ensinam as crianças como faz sexo – Esbravejou outra mãe.
O murmurinho voltou. Patrícia cerrava os dentes e mantinha os punhos fechados. Tirar a paciência de uma professora era coisa rara, mas ela já ouvira tanto que resolveu erguer a voz.
– Vocês acham que eu estou ensinando coisas ruins para os seus filhos? Olhem ao redor! Ruim mesmo são as coisas que acontecem se não ensinamos como se protegerem. Eles são inocentes. Precisamos ter iniciativas que previnam a violência.
– Isso aconteceu poucas vezes aqui. Não precisa desse murmurinho todo. Já tá todo mundo na cadeia.
Lúcia não costumava a ir a reuniões, muito menos falar nelas. Ribeirinha dizia que ela era diferente de todos da família porque era a única que tinha mais sensatez, por isso não brigava tanto quanto Therezinha. Mas quando soube sobre o que os pais queriam discutir, e quando a filha insistiu para que fosse defender sua professorinha preferida, Lúcia viu que dessa vez não poderia fugir.
– E poderia não ter acontecido nunca, se já tivéssemos falado sobre isso. O objetivo é prevenir e eu garanto que é muito melhor do que remediar. – Lúcia falou e as mães se calaram em sinal de respeito pelo acontecido na família.
– Vocês também sabem que recentemente alguém que estava na minha casa, que tinha a minha confiança, tentou tirar a roupa do meu filho e fazer maldade, mas eu ensinei o Kaio. Por isso eu posso estar aqui e não na cidade grande atrás de tratamento pra o meu filho, como a minha irmã está fazendo.- continuou a mulher.
– Eu sinto muito, Lúcia. Mas não acha que é demais aceitar que ela ensine sobre partes íntimas pra crianças tão novas? – Uma das mães da comunidade falou em um tom preocupado.
– Até parece que tua filha não requebra até o chão com aquelas músicas imundas. Isso não é tão ruim quanto? – outra mãe questionou e todas começaram a discutir novamente.
– Vejo que discutir não vai dar em nada, Patrícia. Talvez seja melhor pedir desculpas e suspender esse conteúdo das aulas. – A diretora Edileusa sugeriu em um tom seco. – Algumas pessoas simplesmente não conseguem compreender.
Patrícia olhou para o chão, já lecionava naquela escolinha há 5 anos e no momento que iniciou um assunto relevante, mas socialmente delicado, os pais começaram a questionar seus métodos. Mas como ela poderia ter alguma intenção ruim? Ela amava cada criança como sua. Talvez nunca tivesse filhos seus, mas cada aluno era uma parte de si e ela sentia no peito o quanto debater sobre o assunto era importante justamente porque os pais não teriam essa coragem.
– Eu comecei a dar aula quando tinha 10 anos, senhora diretora, pro meu avô de 64. Ele não sabia ler nem escrever. Agora ele lê a Bíblia todos os dias. Se um homem de 64 anos pôde aprender do zero uma coisa muito mais difícil, então, essas mães também podem.
Logo a professorinha pegou o giz, riscou o quadro e bateu algumas vezes na lousa para chamar atenção. As mães calaram-se aos poucos, curiosas sobre o conteúdo escrito na lousa.
– Como podem ver, a lousa está dividida em duas partes. Erotização precoce e Educação sexual. Acreditem, os dois são muito diferentes.
Patrícia escreveu no quadro negro, abaixo de Erotização precoce.
– A erotização precoce não é boa, porque estimula e incentiva a criança a ter comportamentos e consumir conteúdos que não são adequados pra idade dela. Ensinar seu filho a dançar funk com letras absurdas, usar acessórios de adulto ou deixar que ele veja uma novela com cena de sexo são exemplos disso. Isso é ruim, porque gera um desenvolvimento precoce e tudo o que queremos é que nossos pequenos vivam plenamente sua infância.
– E como sabemos que o que as aulas que você dá aqui não fazem isso? – Uma mãe perguntou em um tom mais curioso que raivoso, isso deixou Patrícia mais confiante.
– Na aula eu ensino sobre ciência, artes, história. Ninguém veio implicar quando ensinei sobre o corpo humano, os olhos, os dentes, ouvidos… Isso porque ainda tratamos as nossas partes íntimas como um assunto adulto e erótico demais. Mas não é verdade. - Patrícia tomou fôlego e continuou.
– Não estou ensinando seus filhos sobre sexo, até porque não é só pra isso que servem nossas partes íntimas. Eu só estou dizendo que esse é um lugar relevante, que devemos ter cuidado e não deixar que os outros toquem sem haver permissão. Além disso eu ensino a contar para os pais e não sentirem vergonha. Mas como as crianças vão se sentir confortáveis falando isso pra vocês se reagem como se fosse um grande pecado tocar neste assunto?
As mães mantiveram-se em silêncio até que uma delas, Patrícia reconheceu como sendo a mãe de Ribeirinha, se pronunciou.
– A professora tá certa. Não são a mesma coisa e se nós amamos nossos filhos como dizemos que amamos então é dever nosso proteger eles. Patrícia só tá fazendo isso.
– Eu estou tentando, mas preciso de ajuda. Uma professora sozinha não é tão forte quanto seria se agisse junto com as famílias de suas crianças.
A classe foi dispensada, mas todas as mães concordaram que também precisavam de mais aulas assim com o intuito de que também ajudassem seus pequenos.
Patrícia sentiu-se orgulhosa, não de si mesma, mas do poder daquilo que tinha nas mãos. Sabia da relevância do que estava fazendo e como poderia mudar a vida de muitos. A professora esperava com o espírito mais otimista que nunca mais ouvissem sobre um caso de violência sexual infantil na comunidade, pois seria assim que ela saberia que seu trabalho em conjunto com os pais gerou resultados.
A professorinha foi preparar a aula do dia seguinte. Pensou também em elaborar alguma cartilha que serviria de guia para os pais e até alguns professores. Mais tarde Edileusa surgiu na sua sala para lhe dar os parabéns e dizer que se sentia grata pela comunidade ter uma educadora tão dedicada. Saiu da sala de Patrícia deixando uma frase esperançosa de que “a educação muda as pessoas e as pessoas mudam o mundo”.
– Nicoly Araújo e Diego Martins
Referências:
https://lunetas.com.br/sexualizacao-precoce-precisamos-falar-sobre-erotizacao-infantil/
Ribeirinha adorava o natal mais que o próprio dia das crianças. Era o seu feriado preferido do ano. Dia 24 ela acordou cedo e tomou um bom banho, depois ajudou a mãe com Kaio. Até João levantou cedo e, milagrosamente, não fez birra para o banho.
A comunidade era simples. Não tinham grandes eventos que podiam compartilhar juntos. Com exceção ao natal, uma época bem diferente, já faziam alguns anos que eram visitados pontualmente por vários voluntários de um projeto. Eles entregavam lanches, kits escolares recheados e, o preferido de Ribeirinha, presentes.
Lúcia sempre se esforçava para levar as crianças. O evento acontecia na escolinha, por isso o trajeto era turbulento. Therezinha era presença certa, já que era ela a principal colaboradora, sempre reunindo mais mães para a limpeza do local. Por esse motivo havia saído mais cedo que os netos e a filha.
Meia hora andando e a família chegou. Os voluntários estavam organizando o som e tirando os sacos de presente da van para colocar dentro de uma das salas de aula. Ribeirinha achava que eles eram os ajudantes do Papai Noel, que só chegava mais tarde para entregar os presentes. Quando perguntou o porquê de ele não aparecer antes os voluntários responderam que ele tinha que entregar os presentes de algumas outras crianças antes.
Ribeirinha viu Rai chegar com a mãe que a deixou sob responsabilidade de Lúcia, já que deveria voltar para o trabalho.
– Rai!! Eu achei que não viria! – Ribeirinha correu até a amiga e a abraçou.
– Sabe que eu nunca perco um natal. – Ela respondeu.
Quando terminaram de tirar tudo da van, cinco garotas foram até as crianças que lá estavam e se apresentaram. Elas tinham gorros de natal na cabeça e distribuíram outros entre as crianças.
– O papai noel pode demorar um pouco. Então que tal nós brincarmos? Vocês sabem de alguma coisa que possamos fazer juntos? – Uma delas, alta e de cabelos cacheados perguntou com doçura.
Dividiram as crianças entre as de menores de 6 e as maiores de 6 para brincar.
Jogaram por um bom tempo pique-pega, bandeirinha e até travinha. As ajudantes de Papai Noel se cansavam rápido, o que Ribeirinha achava engraçado. Diziam não ter o mesmo “pique” que as crianças, mesmo assim jogaram até ficar descabeladas.
Quando jogavam bandeirinha, Rai empurrou um garoto um pouco menor com muita força. Ribeirinha se assustou, pois a amiga normalmente não era tão agressiva, mesmo sendo competitiva. Rai xingou a outra criança com palavrões que só adultos usavam. Foi quando Lúcia precisou intervir e puxar a garota, que se debatia de raiva.
As voluntárias se aproximaram para ver o que estava acontecendo. Quando Amanda chegou foi que Rai acalmou-se.
Amanda era quase uma mamãe Noel. Sempre aparecia nos natais, colocava as crianças no colo e brincava com elas. Era a mais velha das voluntárias, mas ainda era nova demais comparado ao próprio velhinho bondoso.
– Rai? O que houve? – ela perguntou preocupada, mas gentilmente, empurrando óculos para mais perto dos olhos.
– Aquele menino trapaceou! Eu toquei nele e ele deveria parar, mas correu com a bandeira. Esse…- e xingou novamente.
– Querida? Não pode falar assim. É uma linguagem muito feia. Sabia que palavrões espantam o Papai Noel? Ele entrega presentes para crianças educadas. Se continuar falando desse jeito ele não vai te trazer presente.
Rai pediu desculpas baixinho, mas se recusou a pedir desculpas até professora Patrícia aparecer e levar as duas crianças para conversar a sós.
Ribeirinha queria ir com a amiga, mas Amanda não permitiu.
– É melhor deixar que eles conversem sozinhos com a Patrícia, não acha?
– É que eu me preocupo com a Rai. Ela anda estressada ultimamente. Mal sai e mal brinca. Eu tenho que falar com a professora pra não deixar ela de castigo ou ela vai ficar mais triste e estressada.
– Pode deixar que eu falo com a Patrícia. Não se preocupa. – Amanda prometeu.
As crianças pararam de brincar e se reuniram com os pais para fazer uma oração. Daniel, que sempre conduzia as falas, orou o pai nosso e ave Maria e depois agradeceu a presença de todos.
Ribeirinha procurou Rai, mas não a encontrou, viu somente o menino que ela havia empurrado e Patrícia.
– Onde a Rai tá? – perguntou para Lúcia, sua mãe apenas disse que iria procura-lá.
Depois das orações as crianças foram separadas novamente para outros tipos de brincadeiras enquanto preparavam o lanche.
Rai havia recebido um sermão de Patrícia. Ao menos ela considerou assim. Emburrou-se e correu para se trancar no banheiro. Ninguém a entendia de qualquer forma. Isso a fazia sentir muita raiva e tristeza. Ficar triste consequentemente a fazia sentir mais raiva e esse era um ciclo bem comum nos dias da menina.
Ela ouviu as batidas de Patrícia, mas ficou calada até que a professora desistisse.
Pouco tempo depois voltaram a bater na porta e Rai mandou que fossem embora.
– Meu anjo? Sou eu, a tia Lu. Você vai perder o lanche. – falou a mulher com gentileza. Rai sentia um carinho imenso pela mãe de Ribeirinha. Sentia-se confortável com Lúcia que a tratava como filha.
A garota resolveu sair do banheiro, abriu a porta lentamente e abraçou a mulher. – Me desculpa, tia Lu. Eu não queria machucar aquele menino, mas eu estava com muita raiva. – Rai sabia que não podia machucar as pessoas, mas quando ela mesma sentia-se machucada como não retribuir? Algumas lágrimas começaram a escorrer por suas bochechas.
Lúcia acariciou seus cabelos e limpou os olhos molhados da menina.
– Tudo bem, querida. Nós conversamos sobre isso em casa.
Elas caminharam de volta para o pátio, onde as crianças se reuniam. Mas no caminho se depararam com um velhinho vestido de vermelho. O Papai Noel notou a garotinha de olhos vermelhos e perguntou o que estava acontecendo. Rai sentiu-se mal. Ele deveria saber que ela era uma garota malvada e que não ganharia presente.
– Fale com o Papai Noel, Rai.- incentivou Lúcia.
Rai olhou para os pés. – Eu fui malvada.
– Mas parece arrependida, não é? – perguntou o bom velhinho. Rai fez que sim e se segurou para não chorar.
– Ho ho ho, então está tudo bem! O importante é se arrepender e não ser malvada novamente.
– Então quer dizer que eu posso ganhar presente? – Rai levantou os olhos e sorriu.
– Claro! O que você deseja?
Rai aproximou-se de Noel, que se abaixou para ouvir, e sussurrou o seu pedido: – Eu quero uma casa pra morar.
Papai Noel ficou surpreso. – Você já não tem uma? – sussurrou de volta o velhinho.
Rai fez que sim. – Mas eu quero uma que seja só minha. Assim eu posso morar sozinha.
– Oh, mas crianças não devem morar sozinhas.- Respondeu Noel.
– Então quero ser adulta. Assim posso morar sozinha.- insistiu Rai, que parecia aborrecida.
– Mas isso não seria presente que se dê. Muitas pessoas desejam a infância de volta, inclusiva esse velhinho aqui. Você deve aproveitar cada segundo de sua infância. Imagine crescer e não poder brincar. Imagine ver seus amigos se divertindo na rua e você não podendo fazer o mesmo porque é uma adulta. Não é legal.
Rai franziu os lábios e pensou. – Então vou pensar em outra coisa pra pedir.
Papai Noel sorriu e tocou no rosto de Rai. – Isso é ótimo. Agora preciso entregar brinquedos. Vejo você depois do lanche.
Ribeirinha havia guardado suco e cachorro quente para a amiga e as duas conversaram sobre a aparição inesperada do Papai Noel. Mas não conversaram muito, pois Noel logo surgiu para todos e entregou brinquedos e kits escolares.
As crianças se divertiram muito juntamente com os pais que ficaram felizes vendo seus filhos tão alegres. Antes de ir, sem que as crianças vissem, Noel falou com a professora Patrícia sobre o pedido inusitado de uma das crianças que já queria ser adulta. A professora ficou curiosa e prometeu falar com a mãe da menina para verificar se tudo estava bem.
Depois de todos se despedirem, Ribeirinha começou a contar as horas para o próximo Natal. Rai estava ansiosa também, mas ainda não sabia o que pediria ao Papai Noel quando o visse no ano seguinte.
– Nicoly Araújo e Diego Martins
Ribeirinha quase nunca ia para a casa de Rai. Na maioria das vezes era a amiga que a visitava e dormia com ela. Isso porque Ribeirinha sempre procurava a mãe de Rai dizendo que já estava sentindo falta da sua mãe e avó e alguém tinha que ir deixar a menina em casa já tarde da noite.
Porém, naquele dia, Ribeirinha decidiu convencer Lúcia a acompanhá-la. Sua mãe não estava muito convencida de ir com a filha, pois Kaio e João juntos deixariam Vó Therezinha extremamente perturbada, mas Ribeirinha sabia ser persuasiva. A garotinha derramou algumas lágrimas, falou que estava com saudades de Rai e preocupada com a amiga que estava mal.
Rai era uma aluna assídua, nunca perdia uma aula e nunca deixava de entregar as lições na data certa, mas já fazia um tempo que se tornou rotineiro ver a cadeira que ela ocupava vazia uma ou duas vezes na semana.
Rai dizia que a fazenda ficava longe da escola e que a mãe trabalhava muito. Como não havia mais ninguém para ficar com a menina era comum que ela acompanhasse a mãe.
Lúcia acabou decidindo ir com a filha, mas levou Kaio junto. Ribeirinha agradeceu a Deus de não ter sido João o escolhido para ir junto.
Rai estava feliz em vê-la, mas parecia um pouco doente. O rosto estava pálido e o semblante decaído. Ribeirinha mostrou as lições que a amiga havia perdido e disse para Rai que não se preocupasse pois a ajudaria com todas elas, além de contar todas as novidades da escola.
Lúcia foi para a sala conversar com a mãe de Rai. Elas não eram muito próximas, mas sempre sabiam ser cordiais. Kaio estava insistente em ficar com as meninas. Ribeirinha não o culpava, ela mesma odiava o tédio das conversas de adulto que não envolviam fofocas.
– E como está na fazenda? – Ribeirinha perguntou enquanto dava para Kaio um giz de cera colorido e papel para distrair o menino.
Rai deu de ombros. Já fazia um tempo que ela não falava da fazenda. Ribeirinha desconfiava de que era porque havia se tornado chato lá, pois não tinha amigos para brincar e conversar.
– Já faz uns dias que eu não vou. – respondeu desanimada enquanto mexia no cabelo da boneca.
– Ah, sim. Você estava doente, não é? Mas se sente melhor agora? – Ribeirinha insistiu. Rai estava calada demais e isso era estranho para alguém que falava tanto quanto ela.
A garota respondeu a pergunta dando de ombros novamente.
Ribeirinha começou a falar de todos os assuntos que acharia que Rai se interessaria. A amiga demorou a reagir, mas aos poucos foi soltando-se e conversando também.
Depois de algumas conversas jogadas fora as meninas começaram a brincar de teatrinho. Uma seria a princesa e outra a plebeia. Rai amava brincar de teatrinho.
Elas estavam na parte em que a plebeia, Rai, conhecia o príncipe, que também era interpretado por Ribeirinha. Quando ouviram alguém bater na porta e as meninas foram ver quem era.
Um homem alto e de cabelo cacheado estava parado na entrada. A blusa de flanela e as botas que ele usava estavam impecáveis. Ribeirinha viu o grande relógio dourado no braço esquerdo e presumiu que ele tivesse bastante dinheiro. O homem segurava algumas sacolas de supermercado e um presente grande.
Ele olhou para Rai e sorriu. – Olá, Rairrai.
Rai só olhou para os pés e se afastou da porta. – Minha mãe tá na cozinha.
– Eu também vim aqui ver você. Fiquei preocupado quando não foi à fazenda. Quando soube que você estava mal resolvi vir te ver e trazer um presente de Natal atrasado.
Rai continuava não olhando para o homem que estava com o presente estendido. Ribeirinha pegou o presente e agradeceu por Rai.
– Se você não quer mais nada então pode ir. – respondeu Rai e o homem riu sem jeito. Ribeirinha riu junto. Sua amiga estava sendo maldosa com aquele homem que era tão bonito e gentil. – vai entrar, então?
Ele não fez cerimonia e entrou. Kaio correu para se agarrar as pernas de Ribeirinha quando o fazendeiro apareceu na sala e voltou seus olhos para a criança.
– Mas que bebê mais fofo! É seu irmão? – perguntou à Ribeirinha, que anuiu. – Eu gosto muito de crianças. Minha esposa não pode ter filhos e eu sinto muita falta do agito lá em casa. Por isso Rai faz tanta falta.
– Ela me contou da fazenda. Disse que é muito bonita. – Ribeirinha animou-se. Estava feliz em fazer sala para o homem.
– É sim. Você pode ir lá com a Rai quando quiser. Acredito que vai se divertir. Rairrai… abre o presente. Quero saber se você gostou.
A menina tirou cuidadosamente o papel e soltou um breve “uau”. Ribeirinha replicou a surpresa. O presente era um enorme joguinho de chá que parecia de verdade, cheio de xícaras, pires, um bule, e até alguns doces de plástico que pareciam lindos.
– É incrível!- Exclamou Ribeirinha.
– É bonito. Obrigada. – agradeceu Rai com um sorrisinho. Kaio chegou perto do presente. Ele também parecia ter gostado.
O fazendeiro começou a conversar com o menininho. – Não, garotão. Um menino como você precisa de um carrinho. Gosta de carrinhos?
Kaio fez que não com a cabeça.
– Gosta de cavalo? – perguntou o fazendeiro. Kaio parou um tempo para pensar e anuiu. – Um fazendeiro igual o tio, garotão. Vem cá.
O homem esticou os braços e Kaio se aproximou. Ribeirinha e Rai não reparavam em nada pois estavam distraídas com os brinquedos. O fazendeiro pegou o menino no colo e o colocou nos ombros, Kaio soltou um gritinho de satisfação no início até que o fazendeiro começou a balançar e fazer barulhos de cavalo.
A criança se assustou e começou a chorar e a gritar com pavor. Ribeirinha soltou o brinquedo e pediu para o homem devolver a criança. Rápida como uma bala, Lúcia saiu da cozinha e em um segundo pegou o filho de volta.
Kaio chorava muito, então sua mãe escondeu o rosto do pequeno no seio.
– Quem é você? – perguntou Lúcia em um tom feroz.
– É o meu patrão, o fazendeiro. Está tudo bem, Lúcia. – respondeu a mãe de Rai assim que surgiu da cozinha.
– Eu-eu só estava brincando com ele, sinto muito – gaguejou o fazendeiro.
– Eles só estavam brincando, mamãe. – concordou Ribeirinha.
– Tudo bem. Ele anda nervoso com a companhia masculina desde um episódio na minha casa. – Justificou Lúcia. – Não acha melhor irmos? – perguntou Lúcia à Ribeirinha.
A garotinha protestou e o fazendeiro decidiu que seria melhor se ele fosse. Então deixou as sacolas de compras perto da porta e desejou a todos boas festas.
Kaio acalmou-se aos poucos e Lúcia pediu perdão por aquilo à mãe de Rai, que garantiu que não havia problema.
– Ele sempre vem aqui, o seu patrão? – perguntou Lúcia.
– Algumas vezes. Ele nos ajuda muito. É um homem de coração bom. Trás brinquedos e roupas pra Rai e algumas compras pra ajudar na casa. É o melhor emprego que eu já tive.
– Realmente é muita gentileza dele. – Lúcia tentou abafar o tom desconfiado já que para ela todos os homens tinham intenções escondidas.
As mulheres resolveram voltar para a cozinha e tomar café. Dessa vez Kaio foi com a mãe.
Ribeirinha e Rai voltaram a brincar. Dessa vez o príncipe e a plebeia foram tomar chá no palácio. As amigas se divertiram muito no restante do dia. Rai prometeu que voltaria à aula e se despediu da amiga com um semblante mais alegre.
No dia seguinte Ribeirinha reparou que a cadeira que Rai sentava continuava vazia.
– Nicoly Araújo e Diego Martins
Daniel olhou para a família que rodeava a sua sala. Três mulheres, duas delas extremamente escandalosas, e outra tão serena que destoava de toda a confusão.
O delegado massageou as têmporas. – Senhora, por favor, eu não sou o responsável…
– Eu trouxe ela aqui! Minha neta estava irreconhecível e tudo culpa daquele monstro. Eu trouxe ela pra que a justiça fosse feita e vocês soltam ele? – Agora era a idosa quem gritava a plenos pulmões, Daniel a reconheceu como a avó da pequena menina.
– Como vocês podem fazer isso com a minha filha? Todos vocês viram como ela chegou aqui! – Neuza apontou para sua única filha, Maria. A mulher estava transtornada, mal conseguia respirar fundo, sua cabeça doía e a visão começava a ficar turva. – Preciso me sentar.
O delegado Daniel rapidamente arrastou uma cadeira até ela e pediu que se acalmasse. A mulher transpareceu o medo que sentia pela filha.
– Ele não pode ficar impune.
Maria correu até a mãe e perguntou como ela se sentia. Neuza se orgulhava da menininha altruísta que tinha, desde que a filha nasceu ela se perguntava como seria possível – logo ela – gerar algo tão bom e lindo.
Não podia aceitar que alguém com o coração maldoso o suficiente a ponto de macular para sempre uma parte de sua filha, pois aquilo havia manchado aquele coraçãozinho bondoso. Neuza rezava todos os dias para que sua menina se recuperasse.
– Mamãe vamos para casa, por favor. – Maria tinha lágrimas relutantes nos olhos. Queria parecer forte para não afetar mais ainda a mãe que passava mal, mas a menina mal conseguia olhar para o lugar sem trazer a tona sentimentos que ela tão forçosamente lutava para se livrar. – Por favor- Insistiu.
Lúcia interviu vendo a situação, o coração apertado pela irmã e principalmente pela sobrinha. – Neuza, vamos. Não deveríamos ter vindo e muito menos ter trazido a criança.
– Eles precisavam ver a minha menina. Precisavam olhar pra ela e ver como é injusto. – Neuza só sussurrou dessa vez. Fez isso para somente o delegado ouvir.
As mulheres saíram na mesma velocidade que entraram. Daniel passou a mão pelos cabelos, havia se tornado delegado há apenas dois anos e já vira naquela delegacia do interior coisas que arrebataram completamente seu sono a noite.
Esperava desenvolver algum escudo contra isso, mas nada havia mudado nos dois anos.
Obviamente não era o fim. O acusado esperaria o julgamento em liberdade e para a maioria das famílias isso era sinônimo de impunidade. Ele mesmo sabia que não significava isso, mas precisou de cinco anos na faculdade de direito para enfim absorver aquilo.
Não poderia culpar a mãe, afinal o molestador de sua filha estava livre e para os familiares super protetores significava que um criminoso estava a solta enquanto uma garotinha sofria gravemente.
O homem sentiu que precisava fazer algo.
***** **** ****
Daniel foi no seu carro, pois não queria chamar atenção, até a escolinha onde uma amiga de infância dava aula. Patrícia reconheceu de imediato o colega e correu para abraçá-lo, beijando ambas as suas bochechas.
– Dani! Meu Deus como você está charmoso e forte! – as bochechas do homem ficaram vermelhas e ele coçou o couro cabeludo.
– Precisei malhar para conseguir a vaga e isso acabou virando hábito.
Patrícia abriu um sorriso largo. – Eu definitivamente não seria professora se essa fosse uma condição para o cargo. Você parece preocupado. O que há?
Daniel olhou para ela como se falasse “você sabe”. E Paty sabia.
Ela franziu os lábios e anuiu. – Maria. – a mulher envolveu a própria cintura em um abraço, como se sentisse um frio repentino. – Por quê? – Patrícia parecia infinitamente confusa. – Por que ele está livre?
Daniel prometeu que explicaria. Então entraram e Patrícia o fez um café. A conversa seria longa.
***** **** ****
A comunidade não havia ficado tão agitada desde… Ribeirinha não lembrava de nenhuma agitação dessa magnitude. Os adultos falavam sobre uma tal de afronta e retaliação.
Como a menina era demasiadamente jovem, possuía um vocabulário mais curto e nunca havia escutado tais palavras em seus livros infantis. Quando perguntou à mãe, Lúcia a empurrou para o quarto e quando fez o mesmo questionamento à Therezinha a avó a encarou com um ar de “não é da sua conta!”.
Limitou-se a pensar que era uma coisa ruim, já que as pessoas pareciam zangadas.
Alguns dos tios de Ribeirinha – que não se davam ao trabalho de aparecer muitas vezes – surgiram como uma chama e gritavam essas palavras.
Como em uma grande mata com folhas secas o fogo se espalhou rapidamente e ninguém estava fazendo nada sobre isso. Professora Patrícia então surgiu como um anjo. Ela era o tipo de pessoa que quando falava sempre era ouvida, tamanho o respeito que mantinham por ela. Paty estava acompanhada por um homem alto e forte que ela reconheceu como o delegado do caso de Maria.
Em alguns momentos as pessoas amontoadas nas redondezas da casa só sussurravam acerca das informações contidas na cartilha entregue pela professora.
Ribeirinha deu uma olhada, mas haviam mais palavras que não entendia.
– Muitos podem não entender, então eu irei explicar. Sou o delegado Daniel. Essas são cartilhas que consegui de um amigo meu do Tribunal de Justiça. Elas explicam o passo a passo do atendimento nos casos de violência sexual.
– Como podem ver, a família de Maria foi à delegacia onde Daniel trabalha e registraram o boletim de ocorrência. – Patrícia começou a explicar e olhou para o amigo pedindo que a ajudasse.
– Após é instaurado o que chamamos de inquérito policial, uma investigação para apurar os fatos. O processo agora está nas mãos de um juiz, ele decidiu pela liberdade provisória do acusado.
“Absurdo!” uns exclamaram “É isso que chamam de justiça?!” gritaram outros.
– Não é o que imaginamos! Isso não significa que aquele homem vá ficar impune, só que vai esperar livre até o julgamento.
– E onde isso é melhor? Onde isso é justo professora? – a voz de Therezinha estava quebrada pelo rancor e preocupação.
– Não deve ser para vocês, eu sinto muito. Mas aquele homem será julgado, ele será condenado pelo o que fez. – Paty retrucou. – A dor de vocês deve ser gigantesca, porém não pode ser mais sensata que a razão.
– É assim que a justiça age. Ser justo é agir pela razão, é assim que tentamos pegar os bandidos e deixar livres os bons. – Daniel completou – Precisamos ser razoáveis, cautelosos. A liberdade é um de nossos bens mais preciosos, a justiça tem que agir com cuidado ao limitar esse direito.
Não foi fácil para que todos entendessem. Alguns saíram de lá bufando reclamações, porém Ribeirinha entendia. Ao menos achava que sim.
Ela amava correr, brincar com os amigos, ir para a escola e tudo mais que considerava fazer parte de sua liberdade. Imaginava ser aquilo precioso demais para todas as pessoas do mundo. Alguns eram maus e deveriam ser mantidos longe, mas os bons deveriam ser preservados.
Por isso a cautela, outra palavra que havia aprendido aquela tarde, deveriam agir com cuidado quando se trata de um bem tão valioso. Ribeirinha então sabia que não era impunidade só porque todos desejavam que ele fosse levado. A menininha pensou que se uma criança como ela havia entendido, então os outros também entenderiam.
Patrícia ficou até depois que Daniel voltou ao trabalho. Ela explicava para os curiosos sobre as informações da cartilha. Ribeirinha estava ao seu lado, absorvendo tudo, mas a mais curiosa era Neuza.
A mãe só queria saber o que viria a seguir e se preparar para lidar com aquilo, bem como dar suporte à Maria quando precisasse.
– Nicoly Araújo e Diego Martins
"O afeto ou o ódio mudam a face da justiça." — Blaise Pascal
Faça o download da cartilha usada como referência neste capítulo pelo link:
https://futurobrilhante.org/materiais/
Ribeirinha achava que aquela era a semana mais custosa e dolorosa de toda a sua, não tão longa, vida. A audiência, como todos chamavam, ocorreria em uma quarta-feira e o tempo até que ela chegasse se arrastava preguiçosa e forçosamente.
A menininha culpava o clima nebuloso que se instalara na casa desde que aquele homem chegou com a intimação. Tia Neuza não se sentia bem desde então. Sempre com dor de cabeça e tonturas.
Entretanto, todos os olhos se voltavam preocupados para Maria, que regredira significativamente no tratamento.
Ela havia começado a ir para as aulas três vezes na semana e estava se adaptando. No início Ribeirinha ouvia murmúrios nada discretos dos alunos da escolinha enquanto estava com a prima, mas ela e João acompanhavam Maria desde a entrada na sala de aula até a saída dela.
Depois de um tempo a menininha já se sentia menos ansiosa ao ir para a aula e participava bem das atividades em grupo.
Quando o homem (oficial de justiça) chegou e entregou o papel com a intimação todos já tinham ideia do que se tratava graças as aulas de Patrícia e Daniel sobre o procedimento. Ainda assim não estavam preparados.
Maria se escondeu sob as cobertas abraçando o travesseiro de maneira desesperada. A garota cerrou os olhos, o rosto adquirindo um tom pálido, tentado pensar em qualquer outra coisa que não fosse vergonha e medo.
Depois de passados dois dias desde a breve visita do oficial de justiça, Maria chorou para que a família não a deixasse ir. Ela sentiu que estava caindo em algum lugar profundo dentro de si mesma. Nesse lugar habitavam as lembranças ruins, todas concentradas nos últimos meses.
Todos os dias desde quando foi à casa do vizinho e aceitou os doces eram exaustivos. Uma batalha contra memórias e sentimentos de culpa, nojo e impotência. Maria estava cansada demais para falar mais uma vez daquilo, para contar mais uma vez a sua história e voltar a sentir toda a vergonha daquele dia.
Sua família estava nervosa demais. Tentavam não tocar no assunto na frente da menina, mas Maria sabia que aquele era o tópico principal das conversas da mãe e do restante da vila.
Faltava apenas uma semana para o dia em que a audiência foi marcada. Maria mal conseguia comer. Qualquer coisa que ousava parar em seu estômago a fazia passar mal a ponto de vomitar. A assistente social que a acompanhava disse que ela estava sofrendo de ansiedade, mas a garotinha tinha na mente que o significado da palavra não descrevia seu sentimento; afinal estar ansioso é esperar bastante por algo, não era? e tudo o que ela queria era adiar aquele momento.
Quando faltavam apenas dois dias para a audiência Maria não conseguia mais dormir, ou comer, ou brincar. O mundo parecia estar em contagem regressiva e a cada segundo passado encolhia mais um centímetro ao redor dela.
Vó Therezinha pegou alguns retalhos de pano e pediu a ajuda da neta para costurar uma boneca nova para Ribeirinha. No início Maria achou que havia perdido a prática, mas com o tempo as mãos começaram a trabalhar automaticamente dando pontos invisíveis no vestidinho da boneca de pano.
Maria adorava costurar. Costumava sempre pedir pedaços de pano para a avó e com eles produzia as mais belas roupinhas de boneca. As amigas ficavam enlouquecidas com o talento da garotinha, mas a verdade era que Therezinha havia tido muita paciência com a neta ensinando os pontos e os recortes corretos no tecido.
– Nicoly Araújo e Diego Martins
Patrícia percebeu que não seria um dia fácil quando as duas meninas mais unidas da classe começaram a discutir. Na verdade, não havia facilidade em qualquer dia quando se é professora, muito menos professora de terceiro e quarto ano, mas toda a professora contava com pelo menos um de seus pupilos para ser calmo e ajudar. Porém, para a professora, não era bom sinal que as únicas duas crianças comportadas estivessem discutindo entre si.
– Mas o que está acontecendo? – Patrícia perguntou cruzando os braços e olhando para as duas meninas, que fizeram bico e olharam para a professora enquanto encerravam, por hora, a discussão.
– A culpa não é minha, Rai que começou sendo ignorante. – Ribeirinha apontou para a melhor amiga.
– Raiane? – a professora encarou a outra aluna esperando resposta – Não vai se defender? – inquiriu.
Rai deu de ombros. – ela fica metendo o nariz onde não é chamada.
– Ela me chamou de fofoqueira, professora! – Ribeirinha rebateu.
– Raiane! Tem que pedir desculpas. Não pode ser rude assim com a sua melhor amiga.
– Nunca ouvi falar em pedir desculpas quando falamos a verdade – Rai implicou e Ribeirinha ficou vermelha de raiva pulando na professora com intuito de agredir a amiga.
– EI, EI, EI!!! – Patrícia gritou, mas os alunos já estavam se aglomerando ao redor das três e gritando “briga! briga! briga!”.
Alguns segundos depois a discussão foi interrompida por um brado de ‘SILEEEEEEENCIOOOO!!’.
Patrícia, com o rosto vermelho das tentativas de apartar as duas meninas, virou-se e viu a diretora furiosa parada na porta.
Os alunos foram silenciados e as duas crianças soltaram-se e aproveitaram a oportunidade para se esconder atrás das saias de Patrícia.
– Posso saber que baderna é essa na minha escola? – Edileusa perguntou em um tom calmo que deixou Patrícia desconfortável.
A professora passou as mãos na saia na tentativa de desamassá-la e aproveitou para secar as mãos suadas.
– hã… nada? digo… Não ocorreu nada, eu só estava conversando com as meninas e…
– Não ouse mentir para mim, Patrícia – falou Edileusa em um tom ameaçador. A professora se encolheu um pouco e estampou um sorriso amarelo enquanto pensava em algo. As meninas eram, em geral, tão comportadas e Patrícia simplesmente não podia deixar que as duas meninas fossem disciplinadas pela diretora quando acreditava que uma simples conversa resolveria o assunto.
– Eu juro que não é nada grave, se me deixar lidar com a situação… – começou, mas foi interrompida por Edileusa, que ergueu uma das mãos para silenciá-la.
– Quero que passe dever de casa extra para as duas e mande um aviso para os pais que elas ficarão sem recreio durante essa semana.
Rai e Ribeirinha abriram a boca para protestar, mas Patrícia as advertiu com um olhar de que se não permanecessem caladas Edileusa talvez fosse mais severa.
– Espero que não haja próxima vez ou suspendo as duas – Alertou a diretora.
A aula daquele dia fora mais quieta que o normal, já que Edileusa não estava de bom humor e nenhuma outra criança queria perder o recreio.
O sino tocou e, como de costume, os alunos que já tinham suas coisas empacotadas nas mochilas, correram para o pátio ou para as suas casas. Todavia, Patrícia surpreendeu-se com a única remanescente, que ainda copiava lentamente o conteúdo do quadro.
– Precisa de ajuda, Raiane? – perguntou, tentando não ser amistosa demais.
Rai fez que não com a cabeça e continuou escrevendo.
– Quer conversar sobre hoje? – Patrícia mordeu o lábio.
Rai não respondeu e a professora suspirou. – Tudo bem, você é quem decide. Mas não acho realmente queira ficar de mal com a sua melhor amiga, então sugiro que façam as pazes e peça desculpas, porque você não foi nem um pouco educada hoje, Raiane. – Patrícia fez uma pausa esperando que a menina respondesse, mas a garotinha permaneceu em silêncio. – Quando terminar de copiar o que está na lousa, leve seu caderno até a minha mesa que eu vou passar sua tarefa extra.
A professora sentou em sua mesa e começou a corrigir alguns dos trabalhos da turma, depois fez anotações sobre as revisões das próximas aulas com base nos assuntos que os alunos mais erraram. Ela mal percebeu o tempo passar até o estômago roncar implorando por almoço. Raiane ainda estava na cadeira escrevendo no caderno, o que era impossível já que não havia muita coisa para copiar.
Patrícia aproveitou o momento de distração da criança e se aproximou lentamente de onde a menina estava e viu que ela desenhava muito habilidosamente o que parecia uma garotinha muito pequena com olhos grandes e tristes próximo a um adulto… a professora não viu muito, pois Rai fechou apressadamente o caderno.
– O que você quer? – perguntou rudemente.
– Rai esse desenho é lindo, posso ver? – pediu a professora.
– Não, não é da sua conta. – ela levantou-se da cadeira, guardou o caderno de desenhos e entregou o de atividades. – Pode passar a atividade extra.
Patrícia suspirou. Não entendia de onde esse comportamento grosseiro havia surgido em uma garotinha tão jovem. Raiane não estava perto da adolescência ainda. A professora pegou o caderno e o levou para sua mesa e escreveu a tarefa: um texto sobre amizade e as pessoas que ela mais gostava. Também fez um bilhete para a mãe da menina.
“Por favor, precisamos conversar sobre o comportamento de Raiane.”
– Agora vá para casa, já está tarde e sua mãe deve estar preocupada. – pediu Patrícia e acompanhou Rai até o pátio.
A menina caminhou lentamente, mas parou ao chegar ao ver a mãe conversando com a diretora no portão. Patrícia observou a cor se esvair do rosto de Rai e ficou intrigada.
Edileusa e Marta se aproximaram das duas e Raiane deu um passo para trás da professora.
– Já íamos procurar vocês. Marta estava preocupada com Raiane. – disse Edileusa.
– Ela estava finalizando uma tarefa. – garantiu Patrícia e sorriu para Marta. – A diretora já conversou com a senhora? Estamos preocupadas com Rai.
– Ela já falou sim – Marta parecia apressada – Mas não posso falar muito, tenho que ir trabalhar. Vamos Raiane.
Rai se escondeu mais atrás de Patrícia e sussurrou – Não quero ir.
– Algum problema? – perguntou a professora, porém a resposta estava muito bem escrita no rosto de Rai.
– Deixa de birra, Raiane. Eu vou me atrasar por sua causa. – Marta tentou puxar a filha, mas a garota se agarrou fortemente à perna de Patrícia.
– Eu não vou! – berrou.
– Raiane! – retrucou a mãe. – Eu não vou chamar duas vezes.
– Por favor mãe… eu não quero ir.
– Então quer que eu perca meu emprego? Porque sem ele eu não pago as contas, o aluguel, a comida. Ou você vem ou vamos morar na rua. Você quer isso? – a chantagem pareceu surtir efeito na garota, que ficou comovida e afrouxou o aperto na professora.
Patrícia não gostou nada daquela cena que se desenrolava em sua frente, porém não sabia como reagir. Raiane foi puxada pela mãe e as duas saíram sem dizer mais palavras.
– Não achou isso estranho? – perguntou Patrícia à Edileusa. A diretora deu de ombros.
– Você não tem filhos. Às vezes eles fazem birra e temos que apelar para métodos não muito aconselháveis.
A professora não pareceu muito convencida e Rai não saiu de sua cabeça durante todo o resto do dia. Patrícia estava convencida a chamar a menina para uma conversa, já que precisava saber o que estava acontecendo.
No entanto, no dia seguinte a menina não apareceu na aula e a professora resolveu que talvez devesse apelar para uma reunião com a própria mãe da criança.
– Nicoly Araújo e Diego Martins
Patrícia terminaria a aula mais cedo. Decidiu isso quando viu Raiane entrar na sala de aula depois de ter faltado a aula do dia anterior. A garota sentou no fundo da sala. Ribeirinha a encarava carrancuda enquanto via a amiga caminhar para longe. Uma pontada de tristeza tingia os olhos na menina.
A professora havia ficado preocupada com Raiane dois dias atrás, quando se escondeu atrás das pernas de Patrícia e foi dissuadida a ir para a casa pelas ameaças da mãe. Algo ali incomodou Patrícia a ponto de lhe tirar o sono.
Foi quando Raiane faltou no dia seguinte que a professorinha não pôde evitar a necessidade de intervir. A garota, que geralmente era uma aluna exemplar, estava faltando a maioria das aulas e quando aparecia na sala se metia em confusão ou dispersava-se durante a aula, não ouvindo o que a professora dizia.
Patrícia tentou conversar com outros professores, saber o que eles fariam no lugar dela, mas as ideias variavam entre punir a menina com mais tarefas e conversar com os pais ou com a própria garota. A última opção parecia a mais correta, já que Raiane parecia ter medo da mãe ou ao menos medo de alguém. E esse medo a fazia demorar-se a cada lição e ficar cada vez mais tempo na escola do que em casa.
Porém, Rai havia faltado no dia seguinte e isso aguçou os sentidos de Patrícia de tal maneira que a professora não parava de fazer suposições. Decidiu que se a aluna não aparecesse no dia seguinte iria fazer uma visita a sua casa.
Mas Raiane apareceu com o lindo rostinho parecendo tão triste e cheio de olheiras. A única coisa que a impediu de ir conversar com a menina no mesmo instante foi a ciência de que isso espantaria a menina, o que não ajudaria a garotinha a se abrir.
Patrícia improvisou uma lição de pintura, as preferidas de Rai – e das crianças em geral. Ela pediu para que pintassem uma pessoa de confiança, alguém que as crianças sabiam que poderiam contar a qualquer momento. Aquela seria uma lição produtiva para todas as crianças que, depois de verem um filme infantil sobre agressão física, ajudariam a professora a entender se a maioria representaria um familiar.
Mas Patrícia queria mesmo saber quem Rai desenharia. Quem ela poderia pedir ajuda para conversar com a criança sobre os problemas que a afligiam.
Patrícia viu Ribeirinha pintar desajeitadamente sua mãe e sua avó. A tinta estava no rosto da menina enquanto ela franzia o cenho a fim de ver como como poderia consertar o desenho.
– Normalmente a Rai desenhava e eu só coloria – disse a menina, triste. – Tem algo estranho com ela – sussurrou para a professora. – Ela não quer me falar, mas não significa que ela não queira falar para alguém.
Patrícia piscou um tanto atônita e sorriu. – Você é uma criança muito esperta, sabia?
Ribeirinha fez que sim com a cabeça. – Sabia sim. É uma coisa que ouço muito. – Ela deu de ombros com desdém e Patrícia alargou o sorriso.
A professora andou por algumas cadeiras, ansiosa para chegar no fundo onde Rai estava sentada e concentrada no desenho. Ela elogiou alguns alunos, sorriu para outros que estavam se esforçando bastante e, enfim, chegou à carteira de Raiane.
A criança desenhou uma mulher sorridente, de pele parda e cabelos longos e encaracolados. Vestia um lindo vestido rosa florido e tinha uma tiara entre os fios castanhos. Patrícia tomou uma respiração profunda, seu coração saltando no peito com orgulho, ela perguntou, mesmo sabendo a resposta:
– Quem é esta? É um desenho lindo, Rai.
Raiane sorriu fracamente. – Foi difícil chegar ao seu tom de pele. Tive que misturar algumas cores.
Ela mostrou uma das tigelas em que misturara as cores. – Eu…
Patrícia lutou com a emoção que consumia suas palavras. Ela havia se tornado educadora por que amava as crianças e como poderia tocar suas vidas. Mas saber que seria de tal maneira… a ponto de ser a pessoa que aquela menina mais confiava, era inspirador.
Quando a aula terminou, Rai levou seu desenho para a professora como presente. Patrícia aproveitou a oportunidade para pedir que ficasse mais um pouco para que conversassem.
Raiane parecia aliviada. A menina sentou-se em uma cadeira a frente da professora e Patrícia sorriu amplamente.
– Você é uma menina muito talentosa, Rai. Seus desenhos… Nem eu saberia fazer algo tão bonito.
Os olhos da menina brilharam com orgulho antes de ela dar de ombros. Patrícia pensou na menina tímida e humilde tendo uma melhor amiga comunicativa e orgulhosa. Não havia uma dupla melhor.
– Muito obrigada pelo presente. – a professora disse e foi sincera. – Fico honrada em ter essa posição na sua vida e por isso gostaria de que fosse sincera comigo, assim como sou sincera com você.
Rai estranhou por um segundo, mas anuiu com a cabeça.
– Eu senti sua falta ontem. Aconteceu algo?
– Não estava me sentindo bem – a garota afirmou como se tivesse a fala gravada.
– O que estava sentindo? Está melhor?
A garota assentiu. – Era dor de barriga. Mas estou bem.
– Que bom. – Patrícia sorriu, mas ainda achava aquilo estranho demais. – Mas e a sua mãe? O que aconteceu aquele dia? Porque você não queria ir para casa.
A garota empalideceu. – Eu… eu só tinha brigado com ela, não era nada.
– Não parecia ser nada. Eu sinto que há algo que você está me escondendo. O que é?
A menina levantou da cadeira e olhou para o chão enquanto falava: – Eu tenho que ir para casa. Minha mãe está esperando.
Patrícia respirou fundo e assentiu. Então olhou para a criança que dava passos largos até o portão. – Rai. – a professora chamou e a criança olhou para trás. – você pode confiar em mim. – a menina anuiu e continuou andando.
No dia seguinte Raiane faltou e no próximo também.
– Nicoly Araújo e Diego Martins
Ribeirinha observava a mãe ajudar Patrícia a posicionar o projetor na mesa. Elas haviam chegado bem cedo e posicionado o lençol na parede da sala de aula do quarto ano. Depois ajudaram a professora do primário. Enquanto isso a garotinha mal ficava quieta nos próprios calcanhares, pulava animada e perguntava para a professora o que iriam ver.
Ela havia ficado assim desde que leu a anotação feita pela professora em seu caderno. Patrícia havia escrito que pretendia fazer uma sessão de cinema com as crianças sobre educação sexual e escreveu notas nos cadernos de todos os seus alunos perguntando se haveria algum problema para eles. Esta foi uma exigência da diretoria ao ouvir a sugestão da professora. Patrícia havia conversado com a professora do primário que concordou em participar desde que não fosse ela a pedir para Edileusa.
Os pais concordaram e também foram convencidos pela professora a participar da sessão de cinema. No fim, haviam vários pais tão animados quanto as crianças. Ribeirinha sentia de longe o cheiro da pipoca e da manteiga e salivava com a vontade de seguir o cheiro. As crianças foram separadas em dois grupos: as mais novas, de três à seis anos, e as mais velhas, de sete à dez anos.
Ribeirinha sentou junto com as crianças mais velhas e recebeu uma porção generosa de pipoca e guaraná. O filme repassado foi tirado do canal futura e se chamava “que abuso é esse?”. Na verdade, era uma série com fantoches e seus episódios tinham menos de 10 minutos. As crianças mais velhas assistiram sem perder nenhum detalhe.
“Acredita que um monitor marcava aulas de reforço em horários que a escola não havia determinado?” dizia a professorinha assustada e Ribeirinha achou que ela lembrava sua mãe.
Na historinha haviam desmascarado o monitor, pois descobriram que ele havia sido acusado de abuso sexual em outras escolas. Em outro episódio a professorinha comentou sobre uma rede de proteção formada por adultos que trabalhavam juntos para prevenir a violência sexual.
Ribeirinha desgrudou o olho da tela para olhar para a sua mãe, que tinha Kaio no colo e comia pacientemente a pipoca. Estava totalmente envolvida pela historinha. As crianças aprenderam a falar com uma pessoa de confiança, o papel da escola e os toques inapropriados:
“No contato sexual o adulto geralmente procura tocar as partes íntimas da criança ou quer que a criança toque as suas partes íntimas. Deve haver muito cuidado com as carícias empregadas por um adulto”.
A sessão de pipoca terminou com palmas que os pais puxaram. Alguns ficaram para agradecer a Patrícia. Outros até compartilharam memórias ruins da infância e prometeram procurar a professora para que os orientasse melhor.
A professorinha sentiu-se resplandecente, apesar de todo o trabalho. Não era como se ela estivesse mudando o mundo, mas tinha a plena certeza de que algo estava mudando naquela vila.
– Nicoly Araújo e Diego Martins
Conheça as séries do canal futura que Patrícia mostrou para os alunos:
https://www.futura.org.br/projetos/crescersemviolencia/
O lanche da tarde era vitamina de banana. Ribeirinha tomava o mais rápido possível para voltar a brincar com os colegas. Therezinha olhava a neta com cara de quem sabia mais.
Assim que a neta terminou a copada de vitamina e deixou a caneca sobre a pia a avó perguntou para onde ela pretendia ir.
– Para o mesmo lugar de antes, vó. Eu “tava” brincando. – respondeu.
– Pois espere a comida descer. Não vai sair pra lugar nenhum agora.
Ribeirinha fez bico e insistiu, mas sabendo a hora de ceder resolveu sentar no chão da sala e ligar a tv. Mudou alguns canais procurando um desenho, mas parou quando viu um rosto familiar.
– Ô mãeeeee, vó!! – gritou. As duas correram apressadas com Kaio aos calcanhares de Lúcia.
– O que foi menina? – perguntou a avó – Aconteceu alguma coisa?
A garota apontou para a TV no momento em que Kaio gritou e se escondeu atrás das saias da mãe.
“O homem dizia se chamar Francisco e trabalhava como ajudante de pedreiro na casa de Juliana e Marcelo. Depois de um tempo Juliana descobriu que Francisco tirava fotos do filho de 4 anos enquanto estava nu e brincava com a criança como pretexto de tocar o menino de maneira inapropriada…”
– Eu disse, mãe! Todo mundo me disse que eu “tava” neurótica e era muito protetora, mas esse animal tentou fazer o mesmo com o meu filho!
Therezinha se aproximou da filha e colocou os braços ao redor da mulher que tremia. – O que tá escrito aí, Ribeirinha? – Perguntou a avó.
Ribeirinha leu – homem abusa de criança de 4 anos e foge do local para não ser atacado pela população.
– Onde tá o João? – Lúcia perguntou tremendo mais ainda.
– “Tô” aqui mãeee! – o menino apareceu com uma lupa na mão.
Ribeirinha tomou o objeto do irmão. – Seu pestinha! Já estava tentando queimar os insetos?
– Graças a Deus – suspirou Lúcia. – Ninguém sai hoje!
– Mãeee!! – As duas crianças mais velhas reclamaram, mas Lúcia estava irredutível.
As crianças permaneceram em casa todo o dia e Lúcia vigiava as notícias de maneira obsessiva. Insistiu para que trancassem as portas e ficassem todos no mesmo cômodo.
Até vó Therezinha respeitou a vontade da filha e se manteve milagrosamente calada. A família deixou algumas luzes ligadas antes de dormir e ninguém ia para um cômodo sozinho.
Lúcia não dormiu bem a noite e deu graças a Deus por ser sexta-feira, o que significava que não teria de se preocupar com as crianças na aula. Ela temia pelos filhos como só havia feito na vez que descobriram sobre o abuso de Maria, sua sobrinha.
O homem foi preso no dia seguinte, mas os “e se” não saíram da cabeça de Lúcia e Therezinha.
“Nós aprendemos, filha. E não vai acontecer porque ensinamos as crianças o certo” foi o que Therezinha falou.
Ambas eram mães que se preocupavam em demasia com seus filhos. Nem sempre estavam cientes do que acontecia com eles e isso as vezes assustava, mas mesmo a velha Therezinha ainda aprendia sobre maternidade àquela altura da vida.
Jamais deixariam de se preocupar, porém era dever delas preparar suas crias para o mundo e de fato as duas estavam tentando e continuariam a falar de assuntos difíceis se isso significasse manter em segurança as crianças que tanto amavam.
– Nicoly Araújo e Diego Martins
Uma semana.
Já fazia uma semana que uma de suas alunas mais dedicadas não pisava o pé na escola. Raiane era uma garotinha agitada e muito inteligente, mesmo com a repentina mudança de humor ela jamais faltou aula por tanto tempo.
Tudo mudou desde aquele dia em que a mãe da criança apareceu na escolinha. E nada tirava da cabeça de Patrícia as palavras da mulher para a menina: “Então quer que eu perca meu emprego? Porque sem ele eu não pago as contas, o aluguel, a comida. Ou você vem ou vamos morar na rua, você quer isso?”. A ameaça reverberara na mente da professora como um eco que não se dissipava. Havia algo errado ali, mas o que era? O que ela faria?
Patrícia tentou conversar com outra colega professora, porém as respostas eram frustrantes.
– Paty você tem vários alunos para cuidar. Todos os pais eventualmente são duros com os filhos. Se for se preocupar com cada um deles assim vai acabar enlouquecendo.
Mas o que ela deveria fazer? Fez pedagogia, pois acreditava na diferença que poderia trazer à vida daquelas crianças. Se não se preocupasse estaria traindo todo o seu código de ética pessoal.
Dois dias passaram e Patrícia enviou uma mensagem de texto para a mãe de sua aluna solicitando que comparecesse à escola para uma reunião urgente sobre as faltas de Rai.
A professora não recebeu qualquer resposta.
Mais dois dias e ela compareceu à casa de sua aluna, mas não havia ninguém lá. Uma vizinha informou que mal via pessoas na casa, que mãe e filha passavam a maior parte do tempo na fazenda em que a mulher trabalhava como doméstica.
Patrícia pediu para que a senhora avisasse a mãe de Raiane que a professora do colégio de sua filha precisava falar urgentemente com ela.
O fim de semana veio e Patrícia não aguentava mais esperar. Foi novamente à casa de Rai. Bateu palmas em frente à cerca de madeira. Ouviu alguns barulhos dentro da casa e seu coração saltou. A porta rangeu e os passos soaram em direção à cerca.
Raiane abriu o portão e pareceu assustada com a presença da professora. Patrícia abriu um largo sorriso.
– Como você está? – perguntou tentando não parecer demasiadamente aliviada por ver sua aluna saudável, sem aparentes marcas de agressão.
– Eu… bem. O que a senhora veio fazer aqui? – algo no tom da menina era urgente e a professora não pôde deixar de ficar incomodada, como se em algum lugar no fundo de sua mente aquela luzinha vermelha que alertava a presença de problemas estivesse voltando a piscar vagarosamente.
– Senti sua falta na aula, além do mais você quem sempre faz as ilustrações no quadro quando preciso. Ninguém mais possui esse talento, nem mesmo eu.
Os cantos dos lábios da criança se esticaram em um sorriso vergonhoso. Patrícia tirou da bolsa um caderno com as lições e o esticou para que Raiane o pegasse.
– As lições dessa semana. Posso ficar hoje com você tirando dúvidas. Assim você pode voltar para a escola na segunda sem atrasos no conteúdo.
Raiane encarou o caderno, seus olhos brilharam, mas a criança logo baixou a vista. – Não acho que posso voltar. Minha mãe e eu vamos nos mudar pra fazenda e eu vou pra outra escola mais lá perto.
A professora ergueu uma sobrancelha. – Não me notificaram da sua transferência, Rai.
A menina parecia nervosa e mordia a parte interna da bochecha. Logo sua mãe saiu da pequena casa e esticou o pescoço para fora do portão de madeira.
– O que eu posso fazer por você? – a frase deveria ser educada, mas o tom da mulher parecia irritado. Patrícia normalmente era uma pessoa paciente, tinha que ser já que dava aulas para mais de trinta crianças de uma vez, mas estufou peito e respirou fundo para não perder essa virtude com aquela mulher que a ignorara tão deliberadamente.
– A sua filha não foi mais às aulas e eu vim aqui na sua casa e deixei recados. Por que não procurou a escola? Ficamos todos preocupados com Raiane.
A mulher tocou no ombro de sua filha a puxando para dentro dos portões. De jeito nenhum que Patrícia deixaria a garota se ausentar assim, segurou a mão da criança. – Gostaria de falar a sós com a Rai e depois com a senhora. – disse a professora no seu tom mais firme.
– A senhora pode falar o que quiser, mas eu fico perto da minha filha.
A professora tentou se manter paciente. – Rai me disse que irão se mudar, estamos no fim do período letivo, espere que termine ou ela poderá ser prejudicada.
– Olha eu já conversei com a minha filha, já tá tudo certo. Eu preciso manter a casa desde que o meu marido morreu, que Deus o tenha. Não posso perder esse emprego.
A mulher parecia triste, talvez Patrícia a estivesse julgando mal. Porém estava ali, piscando, aquela luz de emergência.
– Entendo a sua situação. Auxiliarei Rai da melhor forma que puder. Posso passar lições para fazer em casa e dar algumas aulas quando ela não puder ir para a escola, mas é importante que termine esse período letivo.
A luz piscava. De jeito nenhum Patrícia deixaria Raiane mudar de escola só para correr o risco de ter professores que não se importavam com ela ou que sequer conheciam a menina brilhante que era para assim identificar que algo estava errado, que algo tinha mudado.
Raiane estava com a cabeça baixa e a conversa encerrou-se ali. Patrícia ao menos tinha a esperança de que a mãe da criança entendesse a importância de deixar a filha na escola por mais aquele mês.
Porém, na segunda-feira a criança não apareceu na escola e a professora mal consegui se concentrar em seus outros alunos. Depois de dispensar a turma mal preocupou-se com o seu almoço. Apenas pegou sua bicicleta e pedalou até a delegacia que seu amigo trabalhava.
“Apenas uma conversa. Pedirei um conselho. Não irei fazer denúncias se não tenho fundamentos”
Daniel estava lá e a recebeu com um sorriso largo e um brilho no olhar. – Paty! Que honra.
A mulher bufou e abanou a mão, dispensado todo aquele tom galanteador como se fosse um mosquito.
– Preciso de ajuda – pediu.
Daniel olhou para a mulher, sua respiração ofegante e seu rosto esbranquiçado e sentiu o coração procurar a garganta para fugir do peito, um nó se formou ali. – Fizeram algo com você…?
Patrícia bufou mais uma vez. – Não, não. É uma de minhas alunas. Ela não vai à aula já faz mais de uma semana.
O delegado fechou a cara. – Paty eu sei que sou um ótimo profissional…
Patrícia girou os olhos. – Muito humilde.
– Mas não acho que tenha qualificações para falar de seus alunos, você deveria procurar outra professora ou até a diretoria. – Continuou Daniel como sequer tivesse sido interrompido.
– Quero a sua opinião. Sei que se preocupa tanto quanto eu.
O homem anuiu e Patrícia contou toda a situação e como não parava de pensar naquilo. – Eu era professora daquela garotinha, a Maria… eu senti algo errado, mas não levei isso à sério.
Daniel se inclinou na cadeira e colocou a mão sobre a de Patrícia, que lutava para conter as lágrimas. As crianças eram tudo para ela e o delegado sabia que sua amiga de longa data se preocupava com todas como se fossem seus filhos. Ela sim era uma profissional incrível.
– Acha que Raiane possa estar sofrendo o mesmo tipo de violência?
Patrícia se sobressaltou. – Não! Quero dizer… eu não posso ser capaz de fazer tais acusações, posso? – ela mordeu os lábios. – Só acho que algo está errado, mas não sei dizer ao certo o quê e também não posso deixar pra lá.
– Então não deixe. – respondeu Daniel.
– Mas o que eu faço? – a professora parecia desesperada.
– Você sabe o que tem que fazer, só precisa ter coragem.
Patrícia respirou fundo e anuiu. – Vou falar com o conselho tutelar.
– Nicoly Araújo e Diego Martins
A primeira reunião da rede de atendimento na comunidade da Ribeirinha aconteceu na escolinha, onde todas as demais coisas costumavam acontecer.
Lá estavam as duas professoras da pequena escola, juntamente com Edileusa, a caricata diretora que estava com uma carranca séria perto da entrada de uma das salas de aula. A assistente social chegou atrasada, mas ninguém reclamou pois ela vinha do CREAS que ficava longe da comunidade.
Daniel apareceu junto com uma amiga delegada e foi cumprimentar Patrícia, que não parava quieta em nenhum lugar, pois organizava os assentos dos participantes que se interessaram em participar da reunião.
No total eram 20 pessoas, contando com alguns membros do conselho tutelar. De todos os importantes profissionais ali, Patrícia foi a escolhida para conduzir a reunião.
– Estamos aqui pois na comunidade descobrimos quatro casos de violência sexual cometidos contra crianças só em novembro do ano passado. O abusador era um senhor que todos conhecíamos e que estava acima de qualquer suspeita.
Therezinha ouvia atentamente. Era a pessoa mais ativa em todas as reuniões da comunidade. Alguns poderiam até alegar que ela era fofoqueira e adorava comentar como fulano ou ciclano não davam exemplo, mas no fundo era puro interesse em saber sempre das coisas que interferiam na sua vida, na de seus filhos e netos.
A senhora lembrou-se de Maria. O caso da neta foi o primeiro a ser descoberto e denunciado. Outros três foram revelados após o dela. Eram outros três filhos, irmãos e netos que tinham a sua vida marcada dolorosamente pela violência sexual.
As lembranças da idosa foram até a sua infância com seus cinco irmãos e seu pai bêbado. Ela lembrou de uma noite em que ele surgiu ao lado de sua rede, mas eram décadas atrás, nem ela mesma sabia, ou queria reconhecer, se aquela lembrança de fato existia ou se as mãos pegajosas e o hálito forte de álcool que assombravam vez ou outra seus sonhos eram reais.
– Mês que vem será maio e esse é um mês importante, assim como o outubro rosa e o novembro azul, pois é o momento em que se intensificam as ações de enfrentamento ao abuso e à exploração sexual cometida contra crianças e adolescentes. Nós da escola pensamos que é bom aproveitarmos essa oportunidade para divulgar uma campanha contra este tipo de violência e, assim, prevenir a ocorrência de novos casos. – continuou a professora.
Ninguém ali precisava explicar a importância daquela campanha já que três das cinco famílias presentes à reunião haviam enfrentado uma situação de abuso no ano anterior.
Todos estavam dispostos a ajudar da maneira que podiam. Patrícia sugeriu uma reunião com os pais das crianças que frequentavam a escola e lições sobre educação sexual pelo menos uma vez por semana.
A representante do CREAS comprometeu-se com a produção de cartazes para serem colocados nos lugares mais frequentados da comunidade destacando a importância de denunciar. Daniel ficou de solicitar ao seu amigo mais das cartilhas com o passo a passo para o atendimento dos casos de violência sexual. O Conselheiro Tutelar disponibilizou-se para entregar as cartilhas nas casas em que visitava juntamente com outros colegas. Os membros da comunidade comprometeram-se a convidar amigos, vizinhos e familiares para as atividades realizadas na escola.
E foi assim que se findou a primeira reunião daquela pequena rede de atendimento. As decisões ali tomadas foram importantes durante aquele mês, pois quando viam os cartazes do CREAS ou liam a cartilha que Daniel conseguiu, algumas crianças começaram a falar “não” para toques de adultos que as deixavam desconfortáveis e alguns adultos começaram a conversar entre si sobre situações que sofreram, ou que algum parente sofreu, sem que soubesse que aquilo era de fato crime.
Therezinha saiu da reunião mais aliviada, pensando que naquele momento de fato fazia algo positivo para as crianças de sua comunidade. A idosa tinha uma memória boa e duvidava que esqueceria do olhar de sua neta quando contou o que tinha sofrido ou a tristeza que a assolara desde então. Ficou em paz ao saber que estava ajudando outras crianças a jamais enfrentarem tal tormento.
Ainda era o começo, sabia bem disso, mas era o início de algo antes nunca visto naquela comunidade.
– Nicoly Araújo e Diego Martins
Maio era um mês difícil naquela região. Na verdade, já fazia alguns meses que o inverno amazônico começou e com ele vieram as fortes chuvas. Mas o ápice torrencial começou na tarde do dia 14 e só teve seu fim na manhã do dia seguinte.
Infelizmente, quando o sol raiou, algumas famílias carregavam baldes de água para fora de suas casas. Alguns telhados foram arrancados e pessoas tiveram que ir para a casa de vizinhos. O rio ficou tão cheio que o nível da água subiu até a altura das casas de madeira e destruiu algumas pequenas plantações familiares, que sobreviviam do que plantavam ali.
Naqueles dias chuvosos a correnteza também foi extremamente forte e carregou galhos e sedimentos rio abaixo, o que prejudicou a pesca.
A comunidade sabia muito bem como eram dias assim. Já estavam habituados a eles. Mas até mesmo vó Therezinha, que orgulhosamente era a terceira pessoa mais velha na comunidade, dizia que não via uma tempestade assim desde os dias de menina. Ribeirinha, que pensava que a avó era anciã o suficiente, achava que ela relatava os acontecimentos da arca de Noé.
Vó Therezinha ao ouvir tamanho disparate tratou de repreendê-la, mas ela mesma não tinha muitos conhecimentos da bíblia para falar daquele assunto com a neta.
O vento forte, que se encarregou de arrancar fora alguns telhados, deixou cinco famílias sem condições de ficar em casa. Logo a comunidade se reorganizou de maneira impecável para que todos ficassem abrigados e bem alimentados.
Foi assim que Ribeirinha foi parar na casa de sua melhor amiga.
– Dona Rita é muito velha e vivia sozinha. A casa dela encheu de água até as canelas, mas a Vó Therezinha disse que ela passou a noite inteira dormindo e só acordou quando a mamãe foi lá ver como ela estava. Não sei como ela consegue, Rai. A Vó Therezinha tem sono leve. Se eu derrubar uma pena no chão ou se a galinha eriçar as penas de um jeito diferente ela já “arregala[1]” os olhos e começa a inspecionar a casa. Eu estou falando muito? Eu sei que estou. Sua mãe não vai gostar de nos ouvir fazendo barulho. Mas esse é o dia mais incrível que eu já vivi. Vó Therezinha brigaria comigo por falar isso, já que muitas pessoas ficaram sem as casas, mas ela também brigaria se eu mentisse e eu estaria mentindo se não falasse que estou muito feliz, afinal eu posso ficar com você aqui por bastante tempo. Não é maravilhoso? – Tagarelou Ribeirinha, mal contendo-se sobre os pés. Era visível a energia em seus olhos.
Raiane estava mais quieta que o normal, porém Ribeirinha já era elétrica o suficiente para causar um reboliço sem precisar de ajuda.
– Eu adorei que vai ficar aqui comigo. Estava me sentindo sozinha esses dias. Tive que voltar para a escolinha, já que os assistentes sociais que vieram aqui disseram que eu deveria. Eu gosto da escolinha. Fico mais tempo por lá e quando volto a minha mãe já saiu para o trabalho. Ela deixa o meu almoço pronto e eu fico até tarde só em casa. Não, não é ruim, eu até que gosto de ficar só.
E assim aquelas duas melhores amigas conversaram durante algumas horas. Depois foram almoçar e conversaram durante os intervalos de uma colherada e outra. A mãe de Rai dizia que era feio falar de boca cheia, mas a tarefa de calar as duas era impossível. Assim que percebeu isso a mulher acabou desistindo e as deixou tagarelando.
Como as crianças inquietas que eram, as meninas não conseguiram descansar. Elas não iriam para a escolinha naquele dia, anunciou a mãe de Rai. Por conta disso as duas acompanhariam a mulher no trabalho.
Raiane insistiu para ficar em casa com Ribeirinha. Disse que preferia assim, mas a amiga não pensava da mesma maneira.
– Ah, Rai! Vamos poder ver os cavalos. Talvez até deixem a gente montar. E você disse que recentemente a porca pariu oito leitõezinhos. Vamos, vamos, por favor, eu imploro!
Se Raiane tinha um defeito, era o de nunca falar “não”. Então foram.
Aquele dia parecia estar sorrindo para elas, disse Ribeirinha com a imaginação voando alto e grata por Vó Therezinha não estar ali para lhe dar um merecido sermão sobre como ela estava sendo uma menina egoísta.
O sol brilhava e não se viam nuvens no céu q já havia descarregado suas reservas sobre aquela humilde comunidade. A fazenda estava cheia de sons de porcos, cavalos e vacas.
Tudo era vibrante, até o cheiro da grama molhada. Elas foram ver os leitões, coisinhas rosas que eram grandes e pesadas para as duas. O caseiro pegou um, o mais miúdo, para que elas segurassem e Ribeirinha sentiu-se nos céus. Ele cheirou a garotinha e a encarou com os pequenos olhos pretos. O focinho úmido fazia cócegas no pescoço da menina.
– É lindo! – e não havia descrição melhor. – Será que eles deixam eu levar? Não, não posso. Vou acabar amando ele e depois vó Therezinha vai fazer um churrasco do pobrezinho. O senhor pode tirar ele do meu braço? A mãe dele está me olhando com uma cara raivosa e ela é bem maior que eu. Além disso eu não acho que consigo fazer isso eu mesma. Já amo esse bebê como se fosse meu.
– Você é uma criança dramática. – falou o caseiro enquanto tirava o leitão dos braços de Ribeirinha.
– Ela vai achar que isso é um elogio – Rai esclareceu. E pela expressão facial da outra garotinha era bem isso que ela havia pensado.
Em um instante Raiane estava sorrindo. Em outro ela ouviu passos pesados de bota e ficou branca, com a boca entreaberta. – O que foi? Você parece o Chaves com piripaque. – inquiriu Ribeirinha.
– Quer brincar de uma coisa? – perguntou Raiane apressadamente. Sua melhor amiga não era boba e entendia como aquilo era estranho, mas decidiu concordar.
– De que? – perguntou.
– Temos que nos esconder do fazendeiro – disse Rai já puxando a amiga pelo braço. – E da minha mãe também. – Acrescentou.
Em segundos elas estavam correndo para fora do chiqueiro e se esgueirando pelos cantos até o celeiro. Aquele não era um lugar muito bom para se esconder, mas logo que entraram no pequeno lugar, Raiane afastou uma tábua e mostrou para a amiga uma brecha na parede de madeira que era grande o suficiente somente para uma criança pequena passar.
Rai passou pela brecha e desapareceu no escuro, Ribeirinha a seguiu sem hesitação. Acabaram indo para uma espécie de depósito bem pequeno, mas lotado de feno, quem entrasse ali não as veria encostadas na parede e não havia outro meio de atravessar o feno sem passar pelo pequeno buraco na parede, que já estava escondido pela tábua de madeira, movida mais uma vez para o lugar correto.
– Que lugar é esse? – perguntou Ribeirinha. Não havia muita luz no local, porém as duas ainda conseguiam ver os rostos uma da outra. Raiane colocou um dedo nos lábios, pedindo silêncio. Aquela brincadeira não era divertida.
– Esconderijo, mas você tem que ficar quieta ou vão nos descobrir.
Elas ouviram passos pesados, ligeiramente arrastados e apressados.
– Rai? Você trouxe uma amiguinha? Não fique com vergonha. Comprei doces para o lanche, os seus preferidos. – sugeriu uma voz masculina grave. Ribeirinha arqueou as sobrancelhas, preferia ir comer doce ao ficar ali escondida atrás daquele feno que a deixava com vontade de espirrar, mas havia urgência no olhar de Raiane.
Foi então que Ribeirinha soube que ela tinha medo dele e ficou triste por sua amiga simplesmente não dizer isso para ela. Mas Rai de fato havia dito, não com palavras, mas com gestos. Toda vez que o fazendeiro aparecia em uma conversa ela ficava nervosa. Odiava ir com a mãe até o trabalho na fazenda.
Os passos soaram para longe, mas a tensão permaneceu por longos minutos. Até que ouviram a mãe de Rai bradar chamando as duas, que teimosamente permaneceram escondidas.
Quando não podiam mais ouvir ninguém por perto, as meninas, sentadas no chão, relaxaram.
– Agora você precisa me dizer o que está acontecendo. – Ribeirinha disse, sem mais delongas.
– Eu não gosto dele. Ele gosta de me por no colo e fazer… carinho. Mas ele tem uma barba que pinica, mãos suadas e grudentas. Minha mãe diz que ele gosta de mim porque eu sou uma criança simples e bondosa, e que eu tenho que ser grata.
– Você deveria falar isso para um adulto. – Sugeriu Ribeirinha.
– Ah não! Me prometa que não vai falar nada, por favor. Minha mãe gosta muito desse emprego e eu realmente não me importo de me esconder no feno.
Ribeirinha achava aquilo errado. Lembrava bem de sua mãe falando que ela deveria dizer não a carícias de adultos que a incomodavam e que deveria falar com ela caso alguém insistisse. Porém a mãe de Rai era uma pessoa menos bondosa que Lúcia, talvez não achasse a mesma coisa. Toda aquela ideia de a amiga permanecer no feno fugindo daquele fazendeiro deixava Ribeirinha incomodada – Não sei, Rai. Acho que deveríamos falar com alguém, essa pessoa pode falar com ele….
– Não. Estou decidida. E se você contar para alguém eu não vou te perdoar e vou dizer que é tudo uma mentira. – Rai estava começando a ficar com os olhos rasos d’água e foi só por isso que Ribeirinha concordou em ficar calada.
– Eu prometo que não vou falar nada, mas você tem que prometer que vai dizer não caso ele te ache e queira fazer carinho. E você também pode correr para a minha casa e eu vou proteger você.
As duas uniram os mindinhos e prometeram solenemente. Depois começaram a imaginar que estavam se escondendo de um monstro que espreitava lá fora, querendo pegá-las com seus tentáculos grudentos de polvo. Passaram um bom tempo assim e conversaram mais ainda, imaginando que Rai era uma princesa presa e que Ribeirinha era uma outra princesa que apareceu para salvar a melhor amiga, sem homens nessa história.
– Quem precisa de príncipe? Eu sou uma princesa lutadora e não preciso ser homem pra ser boa. – Afirmou em um tom confiante.
Saíram do esconderijo um bom tempo depois e levaram uma bronca da mãe de Rai. Mas ao menos o fazendeiro não estava mais lá. Assim, quando voltaram para casa estava tudo bem e as crianças sentiram que tiveram o dia mais divertido de todos.
– Nicoly Araújo e Diego Martins
Tudo era barulhento. Haviam pilhas de paus que logo estariam estalando nos cantos das casas com as fogueiras acesas, crianças ensaiando na escola para uma apresentação, discutindo sobre quem seria o seu par na quadrilha e pais se preocupando com os bolos de macaxeira, mingau de milho e maniçoba.
Todos estavam muito ocupados com os preparativos da grandiosa festinha junina. Mal perceberam o grupo de pessoas que havia chegado na comunidade aquela tarde. Digo mal porque havia sempre aqueles indivíduos mais atentos, que o povo insistia em chamar de “velhas fofoqueiras”, e dentre elas estava Therezinha, que possuía a incrível capacidade de ser mãe de 5, avó de 12, dona de casa, membro participativo de todas as atividades da comunidade e a mulher mais bem informada daquele lugar.
Ela logo falou com Zé do perfume, como era conhecido o dono do comércio mais procurado da comunidade. Zé informou que a Julinha, filha do Pedro Peixeiro, estava toda emperiquitada porque participaria de um teste pra ir na capital tirar fotos para uma marca de cosméticos muito conhecida.
– Ora, mas desde quando eles vêm até aqui atrás de gente pra fazer essas coisas. Na capital tem um monte de mulher bem afeiçoada pra isso. – Disse Therezinha, intrigada.
– Foi o que eu disse, mas ela falou que aqui tinha beleza de verdade, que as meninas da capital eram falsificadas.
– Mas quando… – Therezinha ainda não engolia aquela história. Então procurou a Julinha, que estava reunida com várias outras meninas dando risadinhas típicas das crianças daquela idade.
– JULIANA! – Chamou a senhorinha. – Venha cá.
A menina se sobressaltou e repentinamente as amigas foram saindo de fininho para não enfrentar a velha – Do-dona Thereza! O que eu fiz dessa vez? Juro que não fui eu!
Therezinha bufou. – Deixe disso menina, venha cá que eu quero te perguntar uma coisa.
– Sendo assim… pode perguntar. – respondeu a adolescente.
– Que conversa é essa de teste pra fazer propaganda pra marca de perfume?
– Ah! Não é legal? Se eu ganhar posso ir pra Capital. As minhas amigas falaram que eu que vou ganhar, com certeza, por que elas me acham a mais bonita daqui da comunidade.
Therezinha bufou mais uma vez. – Ah se tu fosses minha neta, ia aprender a ser humilde.
– Devo ter sido uma boa pessoa na outra vida pra Deus não ter me castigado assim. – sussurrou a menina em um tom que sabia que a velha, meio surda como era, não poderia ouvir.
– Me diga onde vai ser esse teste. – O tom de Therezinha era imperativo, sendo uma das anciãs da comunidade, a senhorinha havia se acostumado a mandar em todos pois sabia que ali os mais novos sempre ouviam os mais velhos.
– A senhora não tá velha demais pra querer ser modelo? Não é mais tão bonita, dona Thereza. – A menina brincou e a senhora ficou atordoada com o disparate.
– Mas olha isso! Que desavergonhada! Pois eu era muito mais bonita que tu quando tinha tua idade. Deixe de conversa e me leve até esse pessoal, rápido!
Julinha se agarrou aos braços de Thereza e a levou até uma barraca que estava armada no campinho em que as crianças costumavam jogar bola. No caminho encontrou professora Patrícia sorrindo bobamente com os braços dados ao delegado Daniel que usava uma blusa quadriculada e chapéu de palha. A senhora logo se apressou para o lado dos dois após alguns protestos da adolescente ao seu lado.
– É providência divina encontrar vocês dois aqui. – Disse sem cumprimentar, como costumava fazer.
– Boa tarde, Dona Therezinha. Como a senhora está? – perguntou Daniel.
– Boa tarde, rapaz. Estou bem, mas minhas pernas estão doloridas de tanto andar. – reclamou.
– A senhora deveria descansar – Falou Patrícia em um tom preocupado, se desvencilhando de Daniel e indo checar se a idosa precisava de algo.
– Vocês dois depois que começaram a namorar estão vivendo no mundo da lua. Jovens e suas cabeças apaixonadas! – Therezinha reclamou, deixando o casal com os rostos vermelhos de vergonha.
– Vocês estão namorando?! – perguntou Julinha com um ar chocado.
– Tem muito a aprender, criança. Observe os sinais. – disse a velha.
– Vou andar mais com a senhora – a menina falou decidida.
– Sem mais demora, quero que os dois venham comigo até a tenda daqueles desconhecidos que vieram fazer testes nas crianças.
– Como assim?! – exclamou Patrícia em choque enquanto Daniel franzia o cenho.
– Eles são agenciadores, Dona Thereza – explicou Julinha com condescendência.
– Que seja. Quero que vocês saibam se são o que dizem ser. Vi na TV que muitos se passam por agenciadores enquanto buscam raptar meninas e meninos para explorar sexualmente.
Julinha ficou assustada com a possibilidade de as pessoas simpáticas que conheceu serem, na verdade, gente ruim. Daniel concordou enfaticamente e Patrícia demonstrou-se tão preocupada quanto Therezinha.
Eles foram juntos até a barraca dos agenciadores, Julinha ficou para trás já que os adultos tinham medo de envolvê-la em algo sério. Lá estavam dois homens e três mulheres, bem vestidos e com óculos escuros. Pareciam ser gente séria.
– Os testes começarão apenas às 17h. Inscrevam seus filhos na mesa ao lado. – disse o homem sem olhar os três no rosto.
Daniel limpou a garganta e o homem levantou os olhos. – Pois não?
– O senhor poderia me falar o CNPJ da empresa e me mostrar alguns de seus trabalhos anteriores? Também gostaria do endereço de vocês, por precaução.
– E o senhor é…?
– Ele é delegado de polícia – disse Therezinha. – e o senhor é quem?
O homem parecia desconfortável e se apresentou como Roberto. Mostrou documentos e tudo o que Daniel pediu. O delegado informou que iria pesquisar mais sobre o documento e gostaria que eles comparecessem a escola onde seriam supervisionados por ele e os professores.
– Cuidamos bem das nossas crianças aqui – informou Patrícia.
– Roberto, precisamos de você aqui por um instante – pediu uma das mulheres e o homem a acompanhou com um sorriso simpático.
– Eles são pilantras- sussurrou Therezinha.
Os eventos seguintes aconteceram rapidamente. Daniel ligou para a delegacia e pediu para que pesquisassem o nome do homem e o CNPJ da empresa. Acabou descobrindo que ambos eram falsos. Calmamente ele pediu por duas viaturas.
– Paty, preciso que você ligue para o Lúcio. Ele está aqui com mais dois policiais porque pediu folga. Você o chama e leva Therezinha com você, tá bem?
– Você vai ficar sozinho? – disse Patrícia assustada enquanto olhava para o grupo reunido a uns 10 metros de distância.
– É melhor, caso eles reajam. Não sabemos se eles são bandidos. Agora me dê um beijo e sorria. Precisa disfarçar enquanto sai.
Patrícia ficou na ponta dos pés e beijou Daniel, sorriu e acenou para o grupo. – Trarei um bolo de macaxeira pra vocês. As crianças estão ansiosas para vir aqui!
As duas mulheres saíram e só voltaram a ver Daniel no fim da noite. Depois de prender os membros de uma quadrilha que realizava exploração sexual de crianças e se passavam por agentes de empresas famosas.
– Obrigada, Therezinha. Sem o seu faro coisas ruins poderiam ter acontecido. – Ele disse.
– Você seria uma ótima delegada – Patrícia gracejou e piscou para senhora.
O assunto da noite foi a velhinha que desmascarou uma importante quadrilha e toda a comunidade pareceu muito orgulhosa. Therezinha ficou envergonhada. Quase nunca recebia essa atenção toda, mas acima de tudo estava assustada.
Preferia que fosse só uma paranoia sua e que aquela comunidade ainda fosse segura para todos, porém talvez nunca tenha sido. Ela tinha a fantasiosa ideia de que antes tudo era melhor, mas se lembrava de que na infância e adolescência as coisas não eram boas também.
Por fim, Therezinha se deu conta de quem havia mudado era ela, que agora via o mundo de uma forma diferente. No fim das contas estava satisfeita que esta sua visão tenha salvado a pequena e bela Julinha e as outras crianças da comunidade. Quer isso a assustasse um pouco ou não, era preferível lidar com um mundo real do que com a ideia fictícia de que tudo era bom e assim colocar a sua família, sua casa e seus amigos em perigo.
– Nicoly Araújo e Diego Martins
Uma professora não tem folgas. A vida de Patrícia era lecionar. Ela mal sabia fazer outra coisa que não tivesse o mínimo envolvimento com os alunos. Por isso era uma grande tortura ter de fazer os preparativos para o próprio casamento.
Para a sua sorte ela era uma professora amada. Seus alunos davam ideias e os pais estavam mais do que ansiosos em ajudar com os preparativos. Ribeirinha havia colocado na cabeça que o casamento seria na beira do rio, ao pôr-do-sol. Dizia que seria romântico ter um arco com flores silvestres que dava para o laranja e rosa refletidos no rio pelo céu da tarde.
Patrícia amou a ideia e o vestido que Rai desenhou para ela. Maria e Therezinha se comprometeram a costurar. Ela se casaria durante as férias escolares. Assim teria um pouco de paz e não comprometeria suas tarefas.
Faltando um mês e meio para a festa Patrícia achou que enlouqueceria. Havia as avaliações finais e os relatórios que deveria fazer para a secretaria de educação sobre o desenvolvimento de cada aluno. A professora não sabia mais o que era uma noite de sono, pois quando não estava fazendo as provas ou corrigindo os trabalhos, estava vendo arranjos de flores e revisando a lista de convidados.
Os moradores da comunidade se revezavam para cozinhar as refeições da professora e Daniel participava ativamente de todas as decisões. Ainda deveriam imprimir os convites e entregar a todos naquele espaço curto de tempo.
Tudo estava um caos na mente de Patrícia. Um caos suficiente para que ela deixasse de notar certas coisas.
– Rafael. – chamou automaticamente.
– Presente! – respondeu o aluno.
– Raiane – seguiu com a lista de chamada.
– Faltou – respondeu a classe.
Patrícia levantou as sobrancelhas para a lista de presença. Nela conseguia visualizar a quantidade de faltas de Rai. Duas vezes naquela semana e mais uma na semana anterior. A professora respirou fundo e perguntou à classe se sabiam se Raiane estava doente ou se ela avisou sobre algum compromisso e recebeu uma resposta negativa de todos, menos de Ribeirinha, que ficou calada olhando com extremo interesse para o chão. A professora fez uma nota mental sobre perguntar se havia algo de errado com as faltas à Ribeirinha, que era a melhor amiga de Raiane.
A verdade é que Rai continuava com um comportamento obscuro na sala de aula. Não brigava ou era agressiva. Apenas não se misturava e não era muito de falar com os colegas, com exceção de Ribeirinha.
Mas àquela altura já faziam meses desde que Patrícia procurou o conselho tutelar e só se lembrava vagamente da menina tagarela e risonha que Raiane era. Para o resto da turma ela não estava agindo diferente. Ela sempre foi assim quieta.
Patrícia apertou o polegar na têmpora e continuou a fazer a chamada.
No fim da aula ela lembrou que deveria ir na cidade com Daniel pegar os convites e, como a viagem era longa e ela não havia terminado de preencher o último relatório, não pôde esperar mais nenhum segundo na sala. Lembrou a si mesma de procurar Ribeirinha na segunda, pois após as provas de língua portuguesa estaria mais tranquila.
Saiu apressada e escreveu uma nota de “importante! Rai está faltando outra vez!” em sua agenda.
Na segunda-feira a prova foi aplicada e Raiane não apareceu. A mãe mandou um bilhete por Ribeirinha justificando que a filha não estava se sentindo bem, pois sofria fortes dores de barriga. Em meio a confusão que era a mente de Patrícia, uma luz amarela acendeu.
Meses atrás o conselho tutelar acompanhou Rai. A menina não tinha sinais de agressão física e estava um pouco abaixo do peso esperado. Segundo o médico ela era um pouco anêmica e por conta disso passou algumas vitaminas.
Ela foi levada à uma assistente social que disse que a menina parecia bem e afirmou que aparentava estresse, mas as buscas se encerraram depois que a criança ganhou um pouco mais de peso e começou a ir às aulas assiduamente. As avaliações daquele semestre seriam enviadas para que fosse apurado o desenvolvimento da criança.
Tudo parecia bem e as coisas aparentavam estar voltando ao normal. As suspeitas de Patrícia acerca de violência física nunca foram comprovadas e nem possuíam qualquer outra sustentação. Por conta disso a professora silenciou seus protestos mentais. Tudo estava bem afinal.
Porém, ao fim da prova, Ribeirinha esperou que a sala de aula esvaziasse e falou com os amigos que precisava falar com a professora. Patrícia sorriu para ela.
– Eu esperava falar com você também, mas me diga primeiro o que deseja. – disse a professora.
– É… é sobre a Rai. – ela olhou para os cantos da sala, como se estivesse esperando que alguém surgisse dali e as interrompesse.
– Ah… eu também ia te perguntar sobre ela. O que aconteceu?
– Ela está doente, já faz um tempo, mas acho que a senhora percebeu – respondeu a criança.
Patrícia se ajeitou na cadeira, franzindo o cenho com preocupação. – O que houve? Ela está muito mal?
– Acho que é a fazenda em que a mãe dela trabalha – Ribeirinha estava inquieta enquanto falava. Seus olhos começaram a encher de lágrimas.
– Como assim, meu anjo?
– Eu não acho que seja a fazenda. Acho que é o dono. O fazendeiro está adoecendo ela.
– Ribeirinha… isso é muito sério, por que você acha isso? – Patrícia tentou alcançar as mãos trêmulas da criança, mas a menina se afastou.
– Eu sei disso, professora. Mas eu não posso falar nada. A Rai me pediu para jurar que não falaria nada. Por favor, não diga que fui eu, mas só não deixe que ele se aproxime dela.
Patrícia sentiu que o chão em que pisava era vidro e que esse vidro estava se despedaçando sob seus pés. Que estava caindo de uma altura gigantesca e não sabia quanto tempo duraria a queda. – Ribeirinha…- os olhos da professora marejaram enquanto via sua aluna segurar o choro.
– Eu nunca trairia a Rai, eu juro. Mas fui eu quem falei o segredo da minha prima Maria e a minha família ficou triste desde então. Eu sei que a minha família ainda está triste e eu não quero que com a Rai seja assim. Mas ela é mais nova e eu preciso proteger ela. Não posso deixar que fique mais doente. Eu não trairia a minha melhor amiga se não fosse o melhor.
Àquela altura Ribeirinha estava aos prantos. As lágrimas escorriam facilmente pelo rosto e os soluços faziam seu peito saltar. Patrícia abraçou a criança e acariciou seus cabelos. Disse a todo o momento que as coisas ficariam bem e que a criança fez o certo ao contá-la.
Depois de alguns minutos a professora pegou um copo com água e açúcar para a criança e pediu para que ficasse sentada enquanto fazia uma ligação importante.
Pegou o celular e discou 100.
– Boa tarde, me chamo Patrícia Sousa e sou professora na escola de ensino fundamental. É sobre uma aluna minha. O nome dela é Raiane Oliveira…
***
Patrícia estava sentada na calçada da escola. Daniel estava com um braço ao redor de sua cintura e tentava acalmá-la.
– Eu sinto que é minha culpa – começou a dizer.
– Amor… você fez tudo o que podia. – falou enquanto limpava uma lágrima que escorria lentamente pelo rosto da noiva.
Patrícia balançou a cabeça negativamente. – Há alguns meses ela disse que eu era a pessoa que ela mais confiava no mundo. Se eu tivesse insistido…
– Paty – Daniel falou.
– E o casamento me deixou tão ocupada que eu não notei as faltas.
– Você não pode se culpar. Paty, você fez o que sabia que poderia fazer naquele momento. Você é a pessoa mais amável e dedicada a esses alunos. Você sentiu que havia algo de errado antes de todos.
– E não fiz nada! – retrucou ela.
– Você falou com o conselho tutelar, amor. Eles poderiam ter investigado melhor, poderiam ter indicado um acompanhamento psicológico… Eu poderia ter olhado mais atentamente também. Afinal eu sou policial e também estava a par do caso. Amor, todos poderíamos ter feito mais. Não pode se culpar sem culpar a todos nós, porque funcionamos juntos. Professores, delegados, assistentes sociais, enfermeiros e juízes.
Patrícia curvou o corpo e escondeu o rosto nas mãos espalmadas. Ela sabia que ele tinha razão e ficar ali culpando o sistema e a si mesma não era a saída. Havia uma criança que ela adorava do fundo do seu coração que precisaria de sua ajuda dali pra frente e haveria muitas outras que precisariam da atenção dela. Foi por isso que Patrícia respirou fundo e decidiu voltar a luta.
– Nicoly Araújo e Diego Martins
Poucos meses depois da denúncia feita pela professora de Rai, o poderoso fazendeiro foi condenado pelo crime de estupro de vulnerável. A mãe da criança também foi condenada, pois era conivente com o estupro e realizava ameaças à vitima dizendo que não poderia ficar sem emprego, que a filha não poderia falar nada se não as duas seriam separadas e a criança não teria ninguém que cuidasse dela.
Os detalhes mais sórdidos do caso não foram mencionados na família de Ribeirinha tanto para que não provocasse nenhum gatilho quanto para poupar Raiane. Aquele caso não dependia deles e por isso não mencionariam nada.
Nem todos da comunidade pensavam assim, mas todos foram advertidos pela autoritária Therezinha que aquilo não era assunto para eles.
Raiane realmente não tinha mais ninguém da família a quem recorrer. Por isso ficou sob a guarda provisória de Patrícia e Daniel, que adiaram o casamento indefinidamente e fizeram apenas um contrato de união estável.
Foi um ano difícil para a nova família, mas eles estavam cercados pelo amor de colegas e familiares. Patrícia ajudava Raiane com as lições e deitava ao lado dela todas as noites até que dormisse, dizendo que ela estava bem e que tudo daria certo. Daniel pintava com a criança – já que ambos eram muito bons com desenhos – e sempre trazia lápis e tintas novas, pois aquele era o refúgio que Rai encontrara para sua dor.
As melhoras eram progressivas ao longo dos meses e a menina reagia bem ao amor que recebia. Aos poucos passou a se comunicar mais e depois a tagarelar até que não pudesse mais.
Porém, nas primeiras semanas, Rai se recusou a falar com Ribeirinha. Culpava a amiga por estar separada da mãe e não queria conversa. Mas Ribeirinha insistiu, mandou cartas e fez incontáveis visitas até que a amiga a perdoasse.
Um ano depois Patrícia e Daniel conseguiram se casar. Raiane estava visivelmente mais alegre enquanto andava pelo tapete, de braços dados com sua melhor amiga, jogando as pétalas de flores no caminho com Patrícia as suas costas.
A noiva usava o mais belo vestido que Therezinha já havia costurado na vida e uma linda coroa de flores locais na cabeça. Daniel, por sua vez, chorava como um bobo, junto com a maior parte dos policiais da delegacia de polícia, enquanto via sua linda família caminhando para o altar.
Assim como foi com Maria, Ribeirinha acompanhou o desenvolvimento de Raiane. A menina apresentava melhoras consideráveis no apetite, nas interações sociais e nas notas. Não estava mais tão irritada quanto antes e era muito mais carinhosa.
Após a festa as meninas esconderam-se em um canto com vários doces nos bolsos, rindo e fofocando.
– É tão maravilhoso que você esteja melhor! Estou muito feliz por você – Ribeirinha falou com a boca cheia de brigadeiro.
– Ainda é estranho. Sinto saudade da mamãe. – Raiane olhou para o chão com um semblante entristecido e sua melhor amiga, ao perceber isso, segurou sua mão em apoio.
– Vai dar tudo certo, você só precisa de tempo e eu vou estar aqui durante todos os momentos, te prometo.
As férias estavam próximas e era assustador e emocionante pensar nas coisas que seriam diferentes. Ribeirinha temia pela amiga, assim como temeu pela prima, mas agora sabia que nenhuma criança como elas deveria passar por algo assim e por isso não se manteria calada enquanto as pessoas que amava eram machucadas.
Aquele ano ensinou muitas coisas para a pequena comunidade, que adquiriu novas informações para proteger seus integrantes. Aos poucos todos os adultos começavam a discutir sobre as violências que sofreram na infância sem sequer saberem, naquele tempo, do que se tratava. As crianças falavam com mais frequência sobre todas as carícias que as incomodavam e os pais compreendiam melhor seus filhos. A escola tinha aulas para todas as classes sobre prevenção à violência sexual e os professores estavam mais atentos aos alunos.
Todas essas mudanças foram sendo implementadas com o tempo e a comunidade, de um pouco mais de 300 pessoas, começou a mudar a sua visão e assim o futuro de todas as suas crianças também foi sendo alterado.
Essa parte da história está concluída, mas ainda há muita coisa a ser aprendida pelos nossos personagens e por vocês, nossos leitores. Por isso, fique atento, pois essa aventura não termina aqui.
– Nicoly Araújo e Diego Martins
Notas da autora:
A princípio as aventuras da Ribeirinha seriam apenas histórias que teriam um início, meio e fim em um único texto de, no máximo, 30 linhas. Mas eu sou um tanto exagerada e me empolguei de tal maneira com as personagens e a história que não consegui me conter e apresentei uma proposta do capítulo 1 com cerca de 4 páginas.
Eu aprendi enquanto escrevia, me apaixonei pelas crianças e pela ideia de ter pessoas que admirassem essa história tanto quanto eu. Só tenho a agradecer a todos os que acompanharam nossa comunidade durante esses 20 capítulos e espero do fundo do meu coração que tenham curtido essa aventura tanto quanto eu.
Não é um fim. Ainda temos muito a aprender. Em breve a Ribeirinha estará de volta para nos ensinar.
Presenciou ou suspeitou de um caso de violência? Ligue gratuitamente para o Disque 181 - Disque Denúncia, serviço que funciona todos os dias da semana, para receber denúncias de violência contra crianças e adolescentes. O anonimato é garantido. Você também pode procurar o Conselho Tutelar ou a Delegacia de Polícia Civil da sua cidade.